Segundo Capítulo (parte dele pelo menos)

De todos os lugares onde os mortos vão, aquele parecia ser o pior, imaginou Caurem. Estava completamente envolto por silêncio e escuridão. Não sentia calor ou frio e mesmo o chão não existia mais. Não diria que flutuava, pois isso ainda era sentir algo. O que o circundava era o mais completo vazio. Apenas ele estava lá no meio do nada, embora mesmo seu corpo já se esvanecesse em meio à escuridão e o silêncio. Logo ele também seria destituído de qualquer tipo de existência. Se alguém o perguntasse, talvez dissesse que nunca em sua vida havia experimentado tal paz. E mesmo paz já não era uma palavra que fizesse sentido naquele momento. Pouco a pouco deixou de sentir seus membros, depois a respiração se tornou irrelevante. O coração parou sem que seu dono desse falta. Agora havia apenas uma pequena fímbria de consciência sem corpo em meio à escuridão. Seus pensamentos também o deixaram. Apenas a figura nua da feiticeira continuava em sua pequena e quase desaparecida mente. Esta se recusou a ir ao nada com os restos do que um dia fora um homem chamado Caurem. Sua tenacidade acabou por puxá-lo de volta. Primeiro as lembranças, pensamentos. Depois os pedaços perdidos de seu corpo foram retornando até que voltou a ser novamente um homem. Sons distantes e quase imperceptíveis chegaram até ele. Um vento quente e úmido, o cheiro de terra ensangüentada… Um clarão o envolveu e viu-se deitado na margem do rio. Segurava um grande e esguio pedaço de metal negro, tão afiado quanto uma lâmina. Tinha cortes profundos nas mãos, embora – para seu pavor – não conseguisse soltar aquilo.

A dor do ferimento era quase um prazer profano e o sangue corria como um rio de suas mãos. Sua mente dizia que aquilo não podia estar acontecendo, não devia segurar um pedaço de metal afiado com tanta força até se machucar. Queria largar a coisa, jogar na correnteza, mas seu corpo não obedecia. Em pânico, olhou em volta esperando encontrar alguém que o ajudasse, mas só viu cadáveres dilacerados por toda parte. As sombras pareciam ter ido embora e apenas um grupo de capivaras e alguns urubus fuçavam os corpos. Cambaleou pelo que restou do acampamento, desesperado por encontrar alguém, mas ainda assustado demais para gritar por ajuda. E se aquelas sombras pudessem voltar? Não, era melhor ficar quieto…

Por fim, sentou-se exausto no chão. Suas mãos não paravam de sangrar mesmo assim não obedeciam seu comando de soltar a lâmina. Sentia-se dentro de um terrível pesadelo, pior ainda do que havia acabado de acordar. Pelo menos nele a figura de Uarene o havia salvado do esquecimento completo…

Num segundo, viu-se torcendo para que ela tenha sobrevivido. Afinal, era uma bruxa e devia saber lidar com essas coisas. Saberia como tirar aquilo das mãos dele! Correu para as árvores onde a tinha deixado na noite passada, rezando para que não encontrasse seu corpo retalhado. Um misto de alívio e apreensão tomou conta dele quando não viu nada ali. Ela tinha ido embora, fugido quando teve a chance? Caurem queria acreditar que não. Quem mais podia ajudá-lo ali no meio do nada? Mas era uma esperança infantil. Estava sozinho sem nem ao menos saber o que estava acontecendo com o próprio corpo. Teria sorte se morresse logo…

Encostou-se na parede destruída da casa que até ontem abrigou o comandante. Não podia mais agüentar o medo e o desespero e não sabia mais o que fazer. De repente, sentiu-se profundamente cansado. Talvez morra agora, pensou com alguma esperança. Mas algo dentro dele dizia que não saíra de um sonho de paz e esquecimento para morrer como um animal. Lentamente, forçou-se a acordar e levantar os olhos.

Foi quando finalmente viu uma figura humana bem no limiar da mata com a vila. Estava vestida como os outros solados, mas ao contrário deles, caminhava de um lado para o outro como se procurando alguma coisa. Os longos cabelos negros descendo até a cintura…

– Uarene!…

Caurem gritou com toda a força que ainda lhe restava. Assustada, a mulher se virou e correu até onde ele estava.

– Você!… Pensei que tivesse morrido…

– Por favor, me ajude. Eu não consigo soltar…

Levantou a lâmina completamente banhada no seu sangue o mais alto que pôde. Uarene de um passo para trás. Estava visivelmente assustada. Aproximando-se lentamente, tentou ver o objeto por todos os lados possíveis e o estado das mãos de Caurem. Pensou que ele teria sorte se suas mãos continuassem úteis daqueles ferimentos…

– O que aconteceu? Onde você arranjou essa… essa coisa!

– Não sei!… Acordei e eu já estava segurando isso. Agora não consigo mais soltar! Por favor, me ajude!

– Nunca vi isso… E nunca senti nada tão forte assim na minha vida… Essa coisa não é boa, não pode ser!

Controlando o máximo que podia seu próprio medo, Uarene ajoelhou-se ao lado de Caurem. Fez uns pequenos e rápidos gestos com os dedos na testa dele, depois descendo pelos braços até encontrar os pulsos, agarrando-os e torcendo com toda a força. Os ossos do punho de Caurem estalaram com o movimento e ele uivou de dor, mas finalmente soltou a lâmina. Jogada na terra, seria apenas um pedaço de metal qualquer não fosse sua aparência horrível. Parecia ter sido arrancada de um grande bloco por uma força descomunal. Só assim para explicar o formato irregular e cheio de pequenas pontas ao longo da superfície. E ainda tinha aquele negrume profundo e opaco em toda a sua extensão. Uma escuridão onde a luz do dia desaparecia para sempre naquelas profundezas terríveis. Era isso que Uarene via enquanto segurava os pulsos de Caurem e o preparava para levantá-lo.

Com dificuldade tentaram caminhar uns poucos passos, mas não conseguiram se distanciar muito até Caurem cair sentindo uma dor inominável por todo o corpo. Sem pensar, arrastou-se de volta para a lâmina sob o olhar pasmo de Uarene até poder tocá-la novamente e sentir um pouco de alívio. Enfim concluiu, para seu desespero, que estava preso àquilo

– Você é uma bruxa! Não tem como me ajudar?… Ou prefere me ver morrer assim?

Uarene viu um princípio de ódio nos olhos dele. Não era o mesmo que tinha percebido nos soldados quando olhavam para ela. Era algo mais profundo, muito mais perigoso. Um ódio cultivado por incontáveis gerações. Ainda que fosse muito pequeno, estava lá nos olhos de Caurem, e todo seu ser temia pelo momento em que aquele ódio antiguíssimo explodisse. A destruição que poderia provocar… Não podia deixar aquele homem sozinho. Se algo de ruim acontecesse, a culpa seria toda dela. Contudo, não tinha idéia do que fazer, nunca vira nada parecido antes. Provavelmente ninguém viu.

– Se acalme e espere um pouco. Vou procurar umas coisas e já volto.

Não demorou muito até voltar com várias tiras de couro, um grande pedaço de lona azul-escuro e as roupas secas que pôde encontrar. Primeiro rasgou algumas roupas, espalhou uma pasta verde nelas e atou os ferimentos de Caurem. Esperava que aquela receita pelo menos curasse os cortes. Depois passou a lona, as tiras de couro e as roupas secas para ele.

– Não vou tocar nessa coisa, mas acho que você consegue embrulhar na lona. É melhor que mantenha essa coisa escondida da vista dos outros.

– Tem alguma idéia do que posso fazer pra me livrar disso?

– Honestamente? Nenhuma. Mas vou pensar nisso enquanto busco alguma coisa que sobrou neste lugar… Você tente se arrumar enquanto isso. Não está com nada ferido além das mãos, não é?

Uarene não esperou resposta e se afastou. Caurem ainda não conseguia entender o que estava acontecendo. Era tudo estranho e ameaçador demais para ele. Até ontem era apenas um soldado da República numa campanha militar contra um inimigo que ele nunca soube direito definir. Seus superiores apenas diziam ser um grupo rebelde tentando destruir seu país e limitou-se a não questionar nada e fazer o que lhe mandavam. Agora nem isso mais tinha. Toda sua tropa fora dizimada, as pessoas com quem começara a fazer amizade morreram brutalmente. Estava só, em meio ao fedor dos corpos mutilados e preso a um pedaço estranho de metal como se fosse parte de seu corpo. Parecia um enorme pesadelo insano… Sua única esperança acabou sendo Uarene, a bruxa que ele, num rompante de compaixão, havia libertado. Talvez, bem no fundo, soubesse que toda essa tragédia iria acontecer e fosse seu dever salvá-la ontem. Talvez fosse ele também um bruxo e não sabia disso…

Sacudiu violentamente esse pensamento da cabeça. Tinha que pensar no que fazer com o pedaço de metal e não em besteiras inúteis. Primeiro, tinha que dar um jeito de pegar a coisa sem se cortar. Amarrou algumas tiras de couro e pano rasgado nas mãos e, assim protegido, enrolou o couro restante numa das pontas da lâmina de modo a criar uma empunhadura. De início, pensou que as tiras seriam cortadas facilmente, mas à medida que avançava, viu que o metal parecia aceitar aquela adição como se fosse algo bem vindo e até necessário. Quando pôde empunhar a lâmina com segurança finalmente reparou melhor nela. Era enorme. Devia ter quase a metade do seu tamanho e não mais que três ou quatro dedos de largura. A superfície de um preto fosco e irregular lhe davam um aspecto terrível e pesado, embora não pesasse nada em suas mãos. Era como uma grande pena negra assustadora. Pela primeira vez, sentiu-se realmente poderoso, e teve muito medo. Pegou a lona, enrolando a lâmina do melhor jeito que pôde para nenhum pedaço dela ficar exposto e amarrou tudo com o resto de tiras de couro, deixando um último para que pendurasse a lâmina das costas. Por fim, vestiu as roupas secas que Uarene encontrou; a calça e a camisa azuis do uniforme da República, um gibão de couro decorado com centenas de pequeníssimos losangos de metal e um par de botas tão boas que não teve dúvidas de que tudo aquilo pertencera a um oficial.

Já vestido, pensou em procurar Uarene, mas desistiu logo da idéia. Sentia a obrigação de pelo menos fazer uma pequena oração para aqueles homens do mesmo modo que fez com a pilha de corpos na mata dias atrás. Fechou os olhos e tentou lembrar-se de um verso que lhe ensinaram há muito tempo mas não conseguiu. Tentou lembrar a Trilha do Sol, que recitara há tão pouco tempo, mas ela também havia se perdido nos confins da sua memória. Irritado consigo mesmo pôde apenas se limitar a pensar em Zuleno, Molo e todos aqueles infelizes e pedir desculpas. Não sabia que culpa tinha, mas sentia a necessidade de se desculpar. Esperava que algum dia pudesse saber por que…

Uarene chegou trazendo dois alforjes cheios e dois mosquetes pendurados nas costas.

– Espero que essa coisa não te atrase – disse ela enquanto entregava a arma e os suprimentos a Caurem.

– Não se preocupe, essa lâmina não tem quase peso nenhum pra mim.

– Andei pensando e acho que se formos até Suarana podemos encontrar alguém que possa te ajudar. É a maior cidade da região e todos param lá quando estão viajando pelo Solima. Fica a uns três dias de barco, descendo o Tages, mas como não temos isso, vamos ter que ir a pé. Com sorte chegamos em uma semana, mais ou menos.

– Deve estar cheia de soldados da República… Eles vão estranhar duas pessoas estranhas andando com o uniforme do exército.

– Achei que você fosse um soldado… Invente uma desculpa, ora!

Mas Caurem não queria inventar uma desculpa. Tinha decidido abandonar o exército e não estava disposto a voltar a trás. Infelizmente não havia muito que fazer e esperava não precisar disso quando chegassem lá.

Antes de partirem, contudo, Uarene parou no centro de onde fora a vila. O lugar no qual viveu toda a sua vida. Pegou um pequeno ramo do alforje e o plantou ali enquanto recitava um canto que Caurem não entendia, mas era cheio de dor e tristeza. E ele também encheu-se da tristeza daquele canto, como se estivesse perdendo uma parte vital de si mesmo e o mundo e vida fossem de um sofrimento intolerável a partir de então. Tentou não chorar, mas no fim apenas fez o possível para esconder as lágrimas. Quando Uarene levantou-se, viu que seu rosto estava encharcado e seus olhos vermelhos.

– Vamos embora – disse secando um pouco das lágrimas. Logo a floresta vai invadir este lugar e ninguém nunca mais vai poder vir aqui. Quero estar longe antes do anoitecer.

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Lâmina (reescrevendo) Primeiro capítulo.

Os pés de Caurem doíam terrivelmente. Quando lhe deram o uniforme, reclamou que as botas eram muito pequenas e algumas peças da roupa rasgadas. Tudo que conseguiu foi um suboficial qualquer o insultando de todas as maneiras possíveis, gritando que vestisse logo a porra do uniforme se não quisesse ser preso por insubordinação. Agora amargava semanas de marcha com os pés em carne viva. A calça e a camisa de algodão azul já receberam uns bons remendos desde a partida. A couraça também não se encontrava e melhor estado… Pelo menos não era o único do regimento em farrapos. Em verdade só o capitão parecia um pouco mais respeitável. Ou o que se poderia chamar de respeitável depois de quase um mês em marcha acelerada pela selva, indo por trilhas estreitas e alagadas. Evitando a todo custo as margens dos rios.

O inimigo dominara todas as rotas navegáveis da região, tornando-se suicídio tentar usá-las. As trilhas acidentadas, contudo, maltratavam ainda mais os pés de Caurem. Nos trechos mais largos não tinham mais de um metro e meio entre uma árvore e outra. E o chão, quando não era lamacento e cheio de folhas e animais mortos, tornava-se pedregoso e escorregadio num piscar de olhos. Muitos homens caíram em barrancos escondidos pelas plantas e alguns não voltaram. Ainda assim a marcha continuava. A umidade era tanta que todos temiam que a pólvora que carregavam havia estragado. Caurem torcia para não serem obrigados a enfrentar o inimigo e saber a resposta. Às vezes, nos fins de tarde, chovia torrencialmente. Não mais que uma ou duas horas de temporal, porém o suficiente para complicar ainda mais os caminhos.

– Pelo menos o calor diminui e os mosquitos somem por um tempo. Alguns diziam para tentar animar o ambiente.

Mas não ajudava. A marcha era terrível, o caminho traiçoeiro, três homens pareciam estar doentes e, acima de tudo, os pés de Caurem doíam como se tivessem enfiado mil agulhas neles.

No fim de uma manhã quente e chuvosa encontraram mais de uma centena de corpos espalhados numa clareira, todos nus e com marcas de tiros. Uma mancha negra no chão denunciava o que fora feito das suas roupas depois das execuções. Pelo estado dos corpos pareciam estar ali a menos de uma semana.

– Senhor, acho que devíamos enterrar essa gente – falou Caurem, o rosto coberto por um pano para amenizar o fedor. Não é certo deixar todo mundo aos bichos do mato.

– Não é certo, mas não temos pás pra cavar uma vala nem tempo pra isso. Sabe-se lá se quem fez isso ainda não esteja por perto. Quero todos em alerta redobrado a partir de agora. Podemos encontrar hostilidade no caminho e ainda estamos a dois dias do objetivo. Não quero ninguém morrendo agora.

– Sim, capitão! Mas não posso deixar de sentir pena deles…

– Faça uma oração rápida pelos pobres coitados se isso te acalma. Mas não posso parar o batalhão inteiro por isso. Desculpe…

– Sim, senhor…

Em frente a um dos corpos murmurou uns versos da Trilha do Sol, a mão cobrindo o rosto. O poema sobre a alma perdida encontrando o caminho da luz não o animou muito. Tinha medo de não encontrar trilha nenhuma caso morresse naquela selva úmida, quente e quase sempre nublada. A última vez que vira o sol brilhar com força foi na partida. Desde então só se apresentou esse tempo cinza, o fedor da terra molhada misturada à matéria em decomposição. Agora aqueles corpos também fariam parte do mesmo fedor para todo sempre.

Voltou correndo para o resto do grupo quando os viu se afastarem. O capitão estava certo. Não era seguro continuar ali, ainda mais nesse tempo. Não poderiam fazer nada além de rezar pelas almas dos mortos.

Em pouco mais de uma hora de caminhada encontraram os restos de uma vila. As casas foram queimadas e só umas poucas paredes de pau a pique conseguiram sobreviver. No centro do povoado havia uma enorme cabana circular sem paredes. Tinha uns dez metros de raio e o telhado de palha era apoiado por três grossos troncos na borda e um central. Embaixo uma ou outra esteira de palha forrava o chão.

– Palha molhada deve ser difícil de pegar fogo… Comentou um soldado ao chegarem.

– Que nada! É claro que os desgraçados pouparam o lugar pra dormir. Devem estar por aí, esperando a hora de atacar… Talvez até mesmo esta noite…

– Calem a boca, vocês! Se estão tão preocupados com um ataque iminente acho que preferem ficar de sentinelas hoje. Quanto aos outros, têm permissão pra descansar. Esta chuva não parece que vai embora tão cedo… E não deixem de checar a pólvora! A última coisa que quero é uma arma que não atira quando precisar dela.

Foi a primeira vez em dias que Caurem pôde tirar as botas. O cheiro que vinha de seus pés era nauseabundo. Uma mistura de terra e lodo junto com pele e pus que haviam se desgarrado das feridas nos dedos e calcanhares. O ungüento que trouxe produzia mais ardor do que qualquer efeito benéfico. Se achava com sorte por ainda poder caminhar. Recostado num dos troncos da borda cabana tentava esquecer da dor fechando os olhos, prestando atenção ao barulho da chuva e ao cheiro do mato. Por uns instantes sentia-se quase feliz.

Perguntara-se várias vezes porque se alistara. Se tivesse pego um navio e ido pra um dos principados poderia arranjar alguma ocupação que não envolvesse andar no meio de uma selva úmida e interminável com os pés cheios de feridas. Dizem que no encontro do Solima com o mar havia uma ilha gigantesca sobre a qual uma cidade se erguia, com portos tão grandes que poderiam abrigar todos os navios do mundo. Mas Caurem só vira esse Solima uma vez e ficara apavorado. Haviam-no atravessado no início da viagem em barquinhos tão frágeis que as águas turvas e furiosas do rio poderiam destruir num instante. Mas por algum milagre conseguiram, demorando quase dois dias entre uma margem e outra. Se apenas um rio podia ser tão colossal, tinha medo de imaginar como seria a cidade onde ele termina.

O barulho das gotas de chuva na palha do telhado parecia não querer terminar. Deve ter cochilado sem perceber, pois ao seu lado descobriu um pequeno rolo de ataduras. Devem ter se compadecido dele e dos seus pés. Ou pelo menos não queriam mais tolerar o horror de olhar para aquelas coisas destruídas. De qualquer modo, encharcou o tecido de ungüento e amarrou-o.

Começou a escurecer antes de o tempo estiar. Os homens já se preparavam para noite tentando fazer fogo com a pouca madeira seca que restava por perto. Cozinharam o charque do suprimento, misturando ervas que encontraram pelo caminho. Um dos soldados começou a cantar, logo sendo acompanhado por outros. A velha canção da prostituta Lura, de dotes físicos e peripécias sexuais extraordinárias, era muito conhecida dos malandros, trabalhadores braçais e toda pessoa que os ricos da República chamavam de ralé. O que acabava sendo a maioria absoluta da população. Caurem também já cantara inúmeras vezes em noites de bebedeira que terminavam em manhãs de ressaca solitárias na sua cama. Às vezes acompanhado de uma poça de vômito ao seu lado… Nunca levara muito jeito pra isso, era o que nos últimos tempos gostava de pensar quando lembrava dessas coisas.

– Melhorou o pé?

Alguém ao seu lado perguntou de repente. Trouxera dois potes do cozido e ofereceu um a Caurem.

– O pessoal da tropa ficou preocupado com esses machucados. Uns diziam que você não ia agüentar até o final da marcha. Foi o Molo ali quem pôs as ataduras do seu lado – apontou para um sujeito cantante de rosto e cabelos lambuzados de gordura. Falando nisso, sou Zuleno. Prazer.

– Prazer… Caurem…

– Você não é muito de falar, não é? O caminho inteiro só te vi abrir a boca uma ou duas vezes. A última na clareira cheia de corpos… Tem que ser muito maluco pra querer que a tropa inteira pare pra um monte de defuntos!

Zuleno gargalhou forte. Era alto, gordo, de cabeleira negra farta e revolta e uma barba rala e cheia de falhas. Tudo nele parecia ser grande e exagerado, especialmente as mãos. Caurem imaginou que não deveria ser difícil para ele esganar uma centena de homens num dia sem ao menos se cansar. E muito provavelmente deve ter feito isso…

– Há quanto tempo está no exército?

– Seis meses mais ou menos. É a primeira vez que me mandam pra algum lugar depois do treinamento.

– Então não passa de um recruta de merda – gargalhou ainda mais forte! Vai ter sorte se conseguir sobreviver por um mês. Este lugar é o buraco mais fundo e nojento deste mundo. Aqui só vivem bárbaros. Todos bandidos, assassinos e feiticeiros. Não vão pensar duas vezes antes de te arrancarem as tripas pra alguma magia demoníaca qualquer…

– Não grite assim! – interrompeu o homem logo à frente. Eles podem ouvir e matar todos nós enquanto estivermos dormindo… Ou pior…

O sujeito tinha no rosto a maior expressão de pavor que Caurem já vira. Largou a comida e começou a rezar baixinho, acompanhado de mais dois. Mas foram logo suprimidos pela euforia dos cantos de bordel.

– É verdade mesmo essa conversa de feiticeiros? Pra mim não passa de história pra assustar crianças e gente supersticiosa…

– Você vai ver! Todos nós vamos ver, mais cedo ou mais tarde. Espero que bem tarde…

Caurem não esperava ver. Na verdade não acreditava em magia ou qualquer superstição. O que os sacerdotes haviam lhe contado quando era jovem já bastava. O sol e a lua criaram o mundo onde puseram os homens, e o céu onde puseram as estrelas. Só pela vontade deles uma estrela poderia descer ou um humano subir. A última vez que isso aconteceu foi quando o herói Tamuc criou a Cordilheira com a ajuda de Karieh, a estrela da aurora. Da noite para o dia, as montanhas foram erguidas de uma ponta a outra do continente para impedir o ataque dos gigantes do oeste. Depois subiram ao céu e lá continuam em eterna vigilância. Ou talvez não tivessem sido gigantes e sim demônios… Nunca prestara muita atenção nessas histórias quando lhe contavam. Achava-as terrivelmente chatas e impossíveis de serem minimamente verdadeiras. Mas jamais diria isso em voz alta, ou mesmo baixa. De qualquer forma, não via mal em se acreditar em algo, por mais improvável que fosse. Acabava sentindo-se melhor assim, como na oração na clareira.

Quanto a bruxas e feiticeiros… Eram só histórias pra crianças onde uma criatura dessas ameaçava a população para ser logo derrotada por um herói qualquer. Sabia que muita gente acreditava nisso e as mencionava com um temor profundo, sussurrando entre os dentes. Mas eram só pobres coitados, como os que tentaram liderar uma oração agora a pouco pra serem engolfados por cantoria.

– Já é tarde, amanhã vamos sair daqui antes de clarear. Quem não estiver de pé vai ficar pra trás – gritou o capitão voltando a se encostar onde estava, ao lado de um soldado velho e que roncava como um trovão.

O canto foi diminuindo lentamente até parar. Em pouco tempo boa parte da tropa já estava em sono pesado, a não ser a sentinelas.

Caurem passou toda a noite a sonhar com os pés de Lura.

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Lâmina (título provisório) – Primeiros capítulos.

O capitão passou a noite preso a sonhos com cabeças flutuantes. Giravam à sua volta, os rostos podres e desfigurados rindo de sua nudez. Eram sempre as mesmas, aquelas que viram no caminho, amarradas aos troncos das árvores ao lado da estrada que por alguma razão misteriosa decidiram assombrá-lo. Viu muitos corpos pelo caminho e outras cabeças cortadas, contudo, sempre as mesmas apareciam todas as noites, abreviando-lhe o sono e tornando o cansaço da marcha quase intolerável. Mal pôde conter a alegria quando encontraram a vila ao fim de uma tarde quente e úmida. Um emaranhado de casas de pau-a-pique semi destruídas, usadas agora como base de operações do batalhão.

A marcha até ali durara dias entre mata fechada, caminhos tortuosos, animais ferozes e destruição. Perdera a conta de quantos corpos sem cabeça vira pelo caminho. Desde que a República decidiu pacificar a região, soldados vêm sendo mandados quase sem pausa. O capitão trouxe mais alguns deles. Exaustos e esfomeados desde que saíram do porto de Cartena, muito ao norte dali, depois de uma longa viagem pelo grande rio Solima, correnteza abaixo.

Entre as poucas dezenas de casas, homens caminhavam apressados por todos os lados carregando ordens, mantimentos ou mesmo prisioneiros. O capitão chegou a ver alguns sendo levados para perto da mata, quase fora da vila, amarrados entre si com cordas pelo pescoço e mãos atadas. A maioria sangrava e se arrastava como se fossem seus últimos momentos. E muito provavelmente serão, pensou enquanto virava os olhos para o rio Tages ao lado. A vila localizava-se numa grande clareira entre sua margem e a floresta. Alguns meses antes poderiam ter chegado pela água, mas o inimigo passou a interceptar e afundar qualquer barco que passasse, os obrigando a ir por terra numa viagem muito mais demorada e difícil. Situação que tornou o posto desesperadamente necessitado de suprimentos e recursos humanos, perdidos para a guerra ou as doenças. Não, aquele definitivamente não era um bom lugar para se estar, pensava o capitão enquanto se dirigia à cabana do comandante, deixando o resto da tropa perto da estrada.

“Vejo que não teve uma boa viagem.” Foi a primeira coisa que ouviu do oficial superior. Era um homem alto, já passados dos cinqüenta, bem acima do peso e com os cabelos negros e sujos caindo pela testa. Tinha um tom de voz cansado e um olhar melancólico, que mal levantava para os outros. Estava atrás de uma pequena mesa, cheia de papéis sujos e uma pistola fazendo peso em alguns. Diziam que no passado fora um herói de guerra e assim ganhou seu posto

“Tivemos problemas pelo caminho. Fomos atacados um bom par de vezes, o que me fez perder alguns homens. A malária e o cólera me tiraram uns tantos outros.” O capitão tentava ser o mais profissional possível, enquanto escondia o fato de que não levava o comandante a sério. Imaginou por um momento se, numa batalha, seguiria suas ordens. Não encontrou resposta.

“Chegou com quantos? Espero que ainda tenha alguns sobrando pra morrer neste inferno comigo.”

“Ao todo, cinqüenta e três em perfeitas condições. Outros cinco estão com sintomas de malária, mas creio que se recuperem caso sejam tratados logo.”

“Certifique-se disso então.” O comandante rabiscou uma ordem no papel e o entregou ao capitão sem tentar esconder o quão desapontado estava com as notícias. “O senhor e o resto da sua tropa podem descansar até amanhã, se tudo continuar como está. Dispensado.”

Saiu da cabana a procura do médico do pelotão a fim de lhe dar responsabilidade dos seus homens doentes. Voltou para os saudáveis dando permissão para arrumarem suas barracas.

“Se precisarem de suprimentos, ao norte da vila, perto do rio, tem uma casa que estão usando de depósito. Digam ao soldado de guarda que são meus subordinados e ele vai atendê-los.”

Dito isso, afastou-se para a cabana dos oficiais.

Mesmo que tivessem dormido ao relento pela maior parte do tempo, uma proteção de lona não era muito melhor ante a umidade da floresta e os mosquitos onipresentes. Com movimentos cansados e lentos, os soldados arrumavam seu equipamento no pequeno espaço estabelecido para eles, suficiente apenas para a tenda propriamente dita e mais o que pudessem colocar no espaço junto ao próprio corpo. A maioria simplesmente decidiu jogar o pano sobre um esqueleto de galhos retorcidos e cair de sono ali embaixo de qualquer jeito. Em pouco mais de meia hora, as barracas estavam montadas e a maioria dos homens dormindo.

Três continuaram acordados em frente às tendas, como se estivessem mantendo guarda para os outros. Sentados na terra, um deles limpava o mosquete enquanto os outros olhavam distraídos o ir e vir do acampamento.

“Lugar de merda.” Comentou o que estava com a arma.

“Quando mandaram a gente pra cá, não disseram que era pro inferno…”

“Eles nunca dizem… A pederneira está gasta. Espero que tenha mais neste maldito lugar.”

“Não precisa levantar. Eu vou buscar pra você. Quero andar um pouco.”

“Obrigado, Caurem.

A cabana dos oficiais estava iluminada e de longe podia-se ouvir o som da voz embriagada do capitão cantando alto qualquer coisa que parecia ser uma canção alegre. Boa parte dos soldados havia se recolhido junto com o sol e só uns poucos caminhavam pelo lugar conversando com as sentinelas. O depósito que o capitão havia mencionado era a casa mais destruída do lugar, com palha tentando inutilmente substituir o telhado destruído pelo fogo. Ao lado da porta, um guarda sentando numa banqueta tinha o olhar entediado, prestes a cair no sono. Só percebera Caurem quando ele já estava na sua frente, pedindo para entrar.

“Deve ter alguma pedra aí sobrando. Eu te mostro.” Disse o soldado entre um bocejo e outro.

“Noite abafada hoje, não?”

“Todas as noites aqui são assim… Aqui, esta caixa! Precisa de quantas?”

“Vou levar umas duas por precaução.”

“Todo cuidado do mundo não significa muita coisa aqui, fique avisado.”

“Vou lembrar disso… Obrigado.”

Com as pedras em mãos, não voltou logo para onde estavam os companheiros. Preferiu caminhar à toa pelos escombros da aldeia. Estivera por tanto tempo ao lado dos outros soldados que precisava ficar só. As casas terminavam onde bruscamente se entrelaçavam as árvores, como uma parede verde quase intransponível. Não havia sentinelas ali. Na verdade, só vira alguns na beira do rio e o guarda no depósito. Provavelmente o comandante não espera um ataque vindo da mata. Contudo, Caurem não se sentia bem ao saber que ninguém dava atenção àquele lado. Mas ele era um mero soldado, e gente assim não tem opinião, apenas segue ordens. Foi isso que lhe disseram ao entrar no exército e pretendia seguir o conselho até onde pudesse. Se quisesse dar ordens não teria se alistado em primeiro lugar, era o que pensava.

Tentou tirar sua mente das árvores voltando à caminhada. Mas não muito longe dali viu uma figura que parecia humana em meio à escuridão. Estava amarrada de costas a um tronco baixo, o que forçava a figura a ficar sentada o tempo todo. Era uma mulher e estava completamente nua. Tinha longos cabelos negros que alcançavam a terra e cobriam parte do rosto virado para cima. A pele era bronzeada, seios pequenos e firmes e coxas grossas. Era uma mulher jovem e possivelmente bonita. Ao menos tinha um corpo bonito, pensou. Aproximou-se curioso. Não tinha dúvidas de que alguns soldados a amarraram ali para estuprá-la depois. Mas não havia nenhum homem por perto a não ser ele, e isso o intrigava. A um metro dela, parou e ficou a observar seu rosto. Parecia estar dormindo. Tinha as feições iguais do povo do lugar. Certamente vivia nesta mesma vila antes do ataque. Pensou em soltá-la. Ninguém estava olhando. E se alguém desse falta dela poderia muito bem dizer que nunca a viu. Os locais sabiam perfeitamente como e para onde escapar aqui. Não haveria muito que inventar. Abaixou-se e, tão logo, tocou nas cordas a mão dela agarrou seu braço e um olhar de fúria encontrou o seu. A mulher gritou algo numa língua desconhecida e apertou mais ainda seu braço. Num instante sentiu o medo tomar conta de si. Um medo irracional provocado por uma pessoa totalmente indefesa. Mas aqueles olhos o paralisavam.

Foi quando outra mão mais forte o puxou para trás.

“Cuidado com ela, rapaz!” Disse o soldado. “O último que tentou encostar nessa puta morreu semana passada urrando de dor e coberto de feridas. Ela é uma bruxa, não chegue perto dela!”

Bruxa… A simples menção acordava em Caurem lembranças antigas quando, ainda menino, ouvia histórias de terror dos velhos, cheias de feiticeiros terríveis que enviavam toda sorte de pragas contra a população. Gente assim deveria ser eliminada para o bem da sociedade, era o que no fundo todas as histórias diziam.

“Se é uma bruxa, por que ainda deixam ela viva?”

“Ordens do comandante. Os oficiais dizem que é pra conseguir informação. Mas essa daí não fala nada que se entenda! Nem se pode brincar com ela… Se tentar isso você morre. Então, não chegue mais perto dela!”

O homem só se afastou de Caurem quando ambos estavam bem longe da mulher, que voltara à posição anterior. Sentindo-se terrivelmente cansado, voltou para perto dos companheiros, entregou as pedras e foi dormir. Os olhos furiosos da prisioneira a queimar em sua mente.

À primeira hora da manhã já estavam em frente ao capitão, esperando ordens enquanto tentavam ignorar a aparência cansada dele. A bebida e a insônia fizeram um belo estrago em seu rosto, impossível de ignorar.

“Vou precisar de uns dez homens para ir comigo resgatar uma carga de suprimentos não muito longe daqui. O resto fica e se reportará ao tenente ao meu lado.”

Apontou distraidamente para os homens logo a sua frente, mandando-os se equiparem e esperar. Caurem fora o primeiro escolhido por estar logo à frente do capitão, olhos nos olhos. Agora teria que se armar enquanto lutava contra o sono, ele também vítima de uma noite mal dormida.

Tomaram uma estrada do lado oposto de onde chegaram ontem. Uma rota antes só usada pelos locais e descoberta graças à tortura. Tão estreita que não puderam levar uma carroça. A pouco mais de um quilômetro do acampamento o cheiro de putrefação era insuportável e um ou outro corpo podia ser visto às margens da trilha. Quase toda a população da vila havia sido morta ali e agora servia de comida para os animais. Um dos homens vomitou, caiu e teve que ser levado de volta. Isso os deixou com menos dois soldados na formação. Um péssimo começo para uma missão tão simples, pensou o capitão.

Por toda a noite fora assombrado pelas imagens de cabeças voadoras e aquele cenário não melhorava seu humor. Se pudesse, voltaria com todos, mas tinha seu dever a cumprir. Mais ainda, tinha seu orgulho de oficial. Não ia abandonar uma tarefa por causa de meia dúzia de defuntos podres e uns sujeitos de estômago fraco. Perto do meio dia chegaram ao local, uma pequena clareira na floresta. No meio dela havia caixas de madeira de todos os tamanhos e uns três corpos próximos. Foram decepados e suas cabeças jaziam longe do resto dos corpos.

“Um homem chegou ontem de madrugada contando que foram atacados aqui. Ele não soube dizer quem ou quantos foram. Só que todos correram depois que a cabeça do primeiro carregador caiu bem na frente deles…”

“Só isso? Um deles morre e o resto corre como um monte de formigas assustadas?” Comentou um soldado enquanto examinava um dos corpos. “Parece que a cabeça foi cortada por algo muito afiado… Provavelmente uma espada.”

“Pra cortar a cabeça de alguém com uma espada você precisaria chegar perto do infeliz. Mas a testemunha disse que não viu nada, só a cabeça caindo e correu… Quero que façam uma busca rápida na área. Talvez tenha algo mais aqui pra explicar isso.”

A busca apenas revelou mais corpos decepados fora dos limites da clareira. Somente o homem que chegara ao acampamento conseguiu sobreviver. Nenhum sinal de outras pessoas além dos mortos.

“Isso parece feitiçaria.” Cochichou um dos soldados no ouvido de Caurem.

Já teve sua pequena dose de magia na noite passada e não estava muito disposto a repetir. Não disse nada enquanto voltava para perto das caixas. Ao todo encontraram vinte e dois corpos espalhados em todas as direções. Sem pistas sobre o que aconteceu, o capitão decidiu voltar a sua missão original e ordenou a retirada de comida e água do carregamento. Deixariam o resto em segundo plano ou quando outro grupo puder vir buscar. O caminho de volta foi silencioso e tenso, com os homens virando-se assustados a cada barulho vindo da mata.

Com as imagens de cabeças cortadas mais fixas na mente, o capitão passou a caminhar no fim da fileira. Tinha certeza de que todos aqueles rostos mortos na clareira estavam rindo dele, como se toda aquela situação fosse muito engraçada e ele um tipo de palhaço comandando o espetáculo.

“Não quero nenhum comentário sobre o que viram. Só fomos lá, pegamos o que deu pra pegar e fomos embora. Não havia mais de três corpos de soldados, o resto dos carregadores fugiu. Qualquer um que disser mais eu juro que mato com minhas próprias mãos! Não vou servir de deboche pra ninguém!”

Os homens não disseram nada. Apenas continuaram a caminhar, o peso dos suprimentos atrasando seu passo. Só noite alta conseguiram chegar à vila. Ouviram dos outros que já começavam a montar outro grupo para saber o que aconteceu com eles. Todo o relato do dia saiu apenas da boca do capitão. Os soldados apenas confirmando o que era dito. Só depois da meia noite foram dispensados.

De novo Caurem teve dificuldades de dormir. Julgava ter se impressionado demais com a cena na clareira. E quem não se impressionaria, pensou. Sentou-se do lado de fora da barraca, o cantil em mãos, bebericando um pouco de água enquanto ouvia o barulho da correnteza do Tages. Perto da margem viu uma figura cambaleando que um facho de luar revelou ser o capitão completamente bêbado. Normalmente não se importava com oficiais bebendo, mas teve medo que ele caísse no rio naquele estado.

“Capitão! Por favor, o senhor pode cair no rio e se afogar!”

“E quem seria você, soldado?…” A voz pastosa e fedendo a aguardente golpeou o seu rosto.

“Caurem. Sirvo na sua divisão.”

“Então obedeça minha ordem e suma daqui. Tem cabeças voando pra todo lugar! Elas vão matar todo mundo enquanto riem de mim! Suma daqui!”

Agarrou-lhe pelos ombros e começou a sacudi-lo com força enquanto gritava “suma daqui”. Caurem estava tão consternado que demorou a perceber o grito de alerta vindo de longe. O inimigo se aproximava pelo lado da floresta.

Sem pensar, arrastou o capitão para as barracas dos soldados. Jogando-o no chão enquanto pegava suas armas.

“É melhor o senhor ficar aí.” E saiu em direção ao combate junto com o resto dos soldados.

Atacaram justamente o lado desprovido de sentinelas. Quando chegaram, já havia muitos corpos no chão, a maioria de homens do acampamento, concluiu numa olhada rápida. Tiros vinham de algum ponto entre as árvores e acertavam sempre mais de dez homens de uma vez. Um grupo entrou na mata tentando flanquear os atiradores. Tão logo desapareceram entre os troncos, os disparos cessaram. Pareciam ter sido vitoriosos. Contudo uma nova onda de ataque veio de trás. O grosso da tropa inimiga estava vindo mesmo pelo rio e o ataque pela floresta fora só uma distração. Em poucos minutos estavam encurralados. O comandante gritava ordens inúteis enquanto o resto da soldadesca se desesperava. Muitos tentavam fugir, sendo mortos pelos soldados ainda escondidos na mata. Outros jogavam as armas ao chão e se rendiam. Estes eram mortos à faca, degolados enquanto ainda estavam de mãos levantadas.

“As cabeças cortadas estão aqui! Vão matar todos!”

Só agora se deram conta que o capitão ainda estava vivo. Gritava ainda mais alto que as cabeças cortadas iriam matar todos, jogando as mãos para o alto, completamente louco.

“Que a sua então seja a primeira a cair.” O comandante pôs a pistola na testa do capitão e disparou.

O impacto do seu corpo no chão desequilibrou todos ao redor. Como se uma grande pedra tivesse caído bem ali. Tão logo o capitão caiu morto, a cabeça do comandante foi jogada muitos metros à frente por uma força desconhecida. As forças inimigas, antes vitoriosas, começaram a recuar quando perceberam que seus homens também tinham as cabeças arrancadas sem motivo aparente. O que antes era uma batalha tornou-se um redemoinho de medo e desespero. Inimigos se confundiram na mesma massa em uma fuga inútil. Todos atiravam para qualquer lado que pensavam vir o perigo apenas para serem os próximos a morrer. Sem saber o que fazer, Caurem encolheu-se atrás de um casebre, esperando a sua vez de ser decepado. Já havia perdido as esperanças de sobreviver a um ataque de inimigos comuns e não pensava em sair ileso de um lançado por sabe-se lá o que. Fechou os olhos e lembrou-se daquele olhar terrível da feiticeira no dia que chegou. Talvez ela já estivesse morta naquela confusão toda. Mas uma feiticeira certamente poderia escapar desse tipo de situação… Antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, já estava correndo em direção ao local onde a mulher estava amarrada. Ela continuava lá. Na mesma posição em que a encontrara antes, como se nada do que acontecesse à sua volta lhe dissesse respeito. Puxou a faca e se aproximou. No ato, a mulher virou aqueles olhos para ele, da mesma forma que antes.

“Vim te soltar. Por favor, ajude a gente!”

“Eu não posso ajudar… Está além das minhas forças…”

O espanto por descobrir que a mulher falava sua língua só não foi maior porque, logo ao cortar a primeira corda, foi arremessado vários metros para trás, em direção ao rio. Quando levantou, a feiticeira não estava mais lá. A maioria das pessoas já estava morta ao redor e uns gritos abafados ao longe podiam ser ouvidos. Correu para o rio. Tinha a esperança de escapar se conseguisse pular na água. Perto da margem, foi golpeado na nuca e caiu. Antes que pudesse se dar conta do que aconteceu, um homem pulou em cima dele com uma faca em mãos. A luta durou apenas alguns segundos, com a cabeça do sujeito caindo em seu peito.

Esgotado, arrastou-se até a margem e para dentro da água. Deixou-se levar pela correnteza. Morrer afogado era muito melhor do que morrer daquele jeito… Estava quase em paz quando algo duro e frio agarrou sua mão e começou a arrastá-lo. No mesmo instante desmaiou sentindo o toque cortante.

  ***

            De todos os lugares que os mortos vão, aquele parecia ser o pior, imaginou Caurem. Estava completamente envolto por silencio e escuridão. Não sentia calor ou frio e mesmo o chão não existia. Não diria que flutuava, pois isso ainda era algo. O que o circundava era o mais completo vazio. Apenas ele estava lá no meio do nada, embora mesmo isso já se esvanecesse em meio à escuridão e o silêncio. Logo ele também seria destituído de qualquer tipo de existência. Se alguém o perguntasse, talvez diria que nunca em sua vida havia experimentado tal paz. Mas havia apenas ele, e paz já não era uma palavra que fizesse sentido naquele momento. Pouco a pouco deixou de sentir seus membros, depois a respiração se tornou irrelevante. O coração parou sem que seu dono desse falta. Agora havia apenas uma pequena fímbria de consciência sem corpo em meio à escuridão. Seus pensamentos também o deixaram. Apenas a figura nua da feiticeira continuava em sua pequena e quase desaparecida mente. Recusou-se a ir ao nada com os restos do que um dia fora um homem chamado Caurem. Sua tenacidade acabou por puxá-lo de volta. Primeiro as lembranças, pensamentos. Depois os pedaços perdidos de seu corpo foram retornando até que voltou a ser novamente um homem. Sons distantes e quase imperceptíveis chegaram até ele. Um vento quente e úmido, o cheiro de terra ensangüentada… Um clarão o envolveu e viu-se deitado na margem do rio. Nas mãos, um grande e esguio pedaço de metal negro com mais da metade do seu tamanho e de aparência tão afiada quanto uma lâmina. Suas mãos sangravam ao segurá-lo, embora não sentisse nenhuma vontade de soltar aquilo.

“Não foi fácil tirar você do rio com essa coisa. Deveria jogar fora, mas parece que não vai querer fazer isso.”

A feiticeira estava logo ali, agachada enquanto escavava o chão com uma faca. Tinha pego algumas roupas do batalhão e agora trajava as mesmas botas de couro e calças grossas dos outros soldados. Contudo, no lugar da couraça de metal e couro usava apenas uma camisa de mangas compridas. As peças estavam tão limpas que suspeitou serem da bagagem de um dos oficiais. Mas isso não fazia diferença agora.

“Achei que tinha morrido no ataque.”

“Pensei o mesmo de você. Mas aí te vi se debatendo na água. Achei que estava lutando com alguém, mas quando o puxei estava desmaiado e agarrado a essa coisa.”

“Tem alguma idéia do que seja?” Perguntou enquanto olhava fixamente para o metal negro.

“Não. Nunca vi isso antes. Mas sinto que é ruim. Muito ruim… Se pudesse, deveria largar isso.”

“Por que acha que não posso deixar essa coisa aqui? Não parece muito diferente de lixo.”

“Segurava isso com força enquanto estava desacordado. E mesmo agora não a soltou em nenhum momento. Posso não saber o que é, mas sei que não é um simples pedaço de lixo… Se não acredita, tente jogar no rio agora.”

Levantou-se e caminhou até a água. Ali perto, dois corpos estavam presos a uma raiz exposta na correnteza. O fedor de sangue e entranhas era opressivo e o calor da manhã o tornava insuportável. Caurem ergueu a lâmina acima da cabeça. A luz do sol parecia ser absorvida por ela. Não havia brilho, reflexo ou qualquer diferença que a luz poderia causar à sua superfície. Apenas o negrume total e profundo. Também não tinha peso algum, como se fosse feito de ar misturado aos seus piores pesadelos de criança. Então se voltou para a correnteza preparando-se para atirar o pedaço de metal no leito do rio. Não deve ser difícil, pensou. Contudo seu braço não se movia mais, como se não fosse parte de seu corpo. Nem mesmo sentia os cortes na mão. Por um instante teve medo. Depois apenas apatia e esqueceu completamente do que iria fazer.

“Sabia que não conseguiria. Essa coisa não vai te deixar assim tão fácil… Olhe, naquela casa tem umas roupas limpas e armas. Vá lá e veja se encontra algo que te sirva.”

A feiticeira apontou a casa onde os oficiais se instalaram e Caurem caminhou obediente até lá. Haviam posto um baú com roupas num canto e os mosquetes e pistolas numa mesa ao lado. Encontrou um par de botas e calças parecido com os que a mulher usava e um gibão de couro decorado de pequenas placas losangulares de metal com aspecto de nunca ter sido usado. Então voltou-se para a lâmina. Se tinha que carregar aquela coisa, ao menos que não fosse machucar as mãos o tempo todo. Pegou algumas tiras de couro usadas nos mosquetes e os amarrou numa das pontas do objeto. Quando terminou percebeu que a coisa ficou com o aspecto de uma espada, ainda que o metal parecesse ter sido batido por milhões de martelos enfurecidos e impacientes, deixando uma lâmina pouco uniforme. Com uma lona embrulhou a arma e arrematou tudo com uma última tira de couro e a pendurou nas costas. Por fim, jogou um mosquete nas costas junto com a espada, prendeu uma pistola na cintura e encheu uma bolsa com a munição e suprimentos que conseguia carregar.

Do lado de fora a bruxa plantava uma muda enquanto murmurava um cântico numa língua que ele não entendia. Levantou-se batendo a terra das roupas e caminhando em direção à casa de onde Caurem acabara de sair sem dar importância a ele. Toda a clareira da vila estava coberta de corpos. Na claridade da manhã, pôde perceber que todos usavam o mesmo tipo de equipamento dos exércitos da República. Foram atacados por seus próprios aliados. Ou pelo menos pensavam ser aliados…

“Se está imaginando que essa gente pegou os uniformes de outro grupo, está errado. São soldados como você. Apenas a serviço de outro general… Não te disseram que veio lutar contra sua própria gente, não é?”

A mulher tinha voltado com um mosquete às costas, uma bolsa de suprimentos e uma pistola assim como Caurem. Tinha usado tiras de couro para amarrar os cabelos que chegavam até a cintura.

“Só disseram que viemos lutar contra um grupo de bárbaros que estavam invadindo as fronteiras…”

“E no meio dessa luta, acabam com todos que vivem por aqui como fizeram com esta aldeia.”

“Morava aqui?”

“Nasci aqui, mas isso acabou. Quando sairmos, este lugar vai ser fechado para sempre pela floresta e ninguém vai poder se aproximar… Vamos logo!”

“Quer que eu vá com você?”

“Sabe o caminho de volta? E pode enfrentar sozinho qualquer tropa que encontrar? Morreria antes do primeiro dia! Além do mais, você me ajudou ontem. Não posso te deixar sozinho aqui.”

“Posso saber seu nome, então?”

“Uarene.”

“Caurem.”

“Eu sei. Já sabia desde a primeira vez que te vi.”

Foram pela trilha dos suprimentos usada no dia anterior. À medida que avançavam, percebia que a mata às suas costas se adensava, engolindo a passagem. Depois de uma hora já não via caminho algum atrás dele. Chegaram onde haviam encontrado os carregadores mortos antes. O cheiro de podridão era ainda mais forte e todo tipo de inseto voava e se aglomerava em torno dos corpos e das caixas. Apertaram o passo a fim de escapar do fedor e chegaram num riacho onde a estrada desaparecia por completo.

“Como os carregadores passaram por isso?”

“Não passaram. Estamos indo por um caminho diferente.”

“Indo pra onde?”

“Pra cidade mais próxima, onde mais? Fica a uns três ou quatro dias pelo rio. Por aqui deve demorar uma semana, no mínimo, mas acho que não vamos ser incomodados por seus colegas. Quando chegarmos você se mistura ao povo e toma um barco rio acima até o Solima. De lá você decide pra onde vai. Anda logo, tem uma clareira mais à frente. Quero chegar lá antes de anoitecer.”

Depois do riacho, a mata se adensava, de modo que Caurem frequentemente tropeçava ou batia a cabeça em galhos e plantas. Uarene parecia não se importar com as plantas, tanto que nem trouxera um facão para abrir o caminho. Caminhava pelo terreno instável como se fosse parte dele, desviando das pedras e das árvores com a naturalidade de um animal selvagem. Não pararam para almoçar. Ao invés disso, colheram as jabuticabas que encontraram no caminho e foram comendo à medida que marchavam. O sabor da fruta era uma novidade para Caurem. Achava delicioso. E a brincadeira de arrancar a polpa da casca com semente e tudo o fez esquecer um pouco a caminhada cansativa. Quando as frutas acabaram, percebeu que Uarene já estava muito a sua frente e quase não podia vê-la entre as árvores. Não devia ter se distraído tanto em comer, pensou. Tentou acelerar o passo, mas só o que conseguiu foi tropeçar numa raiz e cair arranhando o rosto num tronco e batendo o joelho numa pedra escondida pelas folhagens. A dor foi tanta que não conseguiu levantar por um momento. Teve vontade de gritar todos os xingamentos que conhecia, mas algo o fazia aproveitar aquela raiva silenciosamente, tomando-a em pequenos goles como uma bebida fina. Sentiu-se mais forte e, por um momento, a floresta parecia sumir, só voltando quando percebeu Uarene a sua frente o chamando.

“Se você sonha acordado toda vez que cai é melhor tomar cuidado senão vai nos atrasar. A clareira já está perto. Não deve demorar mais que uma hora e pouco pra chegarmos.”

Ela o ajudou a se levantar e retomaram o caminho num passo mais lento. Estava escuro quando chegaram à clareira. Caurem jogou suas coisas no chão e tratou de acender uma fogueira com os galhos que conseguiu reunir na penumbra. Uarene ficou caminhando perto das árvores, as tocando de vez em quando e murmurando uma oração pelo que ele pôde entender.

Não foi a melhor fogueira que fez na vida, mas ao menos podia comer algo quente esta noite. No caso, um pouco de charque ensopado que havia trazido do povoado. Depois de percorrer as árvores próximas, Uarene sentou-se ao lado do fogo, mas com o olhar atento aos limites da clareira.

“Então, já decidiu o que eu vou fazer quando chegarmos. Mas eu queria saber o que você pretende fazer.”

A pergunta acordou Uarene do seu transe. Por um momento pensou em dizer que isso não dizia respeito a ele. Que era melhor ele sumir daquele inferno antes… antes que algo muito ruim pudesse acontecer. Mas ela não tinha poder para decidir isso…

“Ser uma curandeira em algum povoado bem longe daqui, talvez… Mas isso é depois.”

“Depois?…”

Mastigava um pedaço de charque enquanto fez a pergunta. O que lhe deu um ar idiota. Os cabelos negros e lisos emoldurando um rosto redondo, quase infantil. A feiticeira sentiu pena daquele homem. Pena por ele ser o que é e onde foi jogado pela vida. E mais pena por ter sobrevivido ao ataque da noite passada. Mas não sabia responder por que sentia isso…

“Quer saber mesmo? Vou matar todos os soldados da República. Cada um deles. Do mesmo jeito que mataram as pessoas do povoado. Quero que sofram como eles sofreram… Não, muito mais.”

A luz do fogo permitiu a Caurem ver todo o ódio dos olhos dela enquanto respondia. Aqueles mesmos olhos raivosos que o encararam a primeira vez. Mesmo não direcionado a ele, sentiu medo. Medo de onde tudo aquilo poderia levar. Porém no fundo, num recôndito desconhecido de sua alma, um grande contentamento nascia a partir do ódio daquela mulher. Como um parasita. Embora ainda fosse fraco para perceber.

“Agora me responda você. O que levou alguém sem o menor jeito de soldado entrar para o exército?”

“Sem jeito? Não imaginava ser tão ruim assim… Bem, eu era contador de um comerciante de tecidos na República. Mas começou a desaparecer mercadoria do armazém dele e a culpa caiu em cima de mim, claro. Por conta disso não pude mais trabalhar pra ninguém. Já estava na miséria quando ouvi que no exército te dão um bom par de botas e três refeições por dia, o que eu mais precisava. Então estou aqui.”

“Não sei se me surpreendo mais em saber que você pode roubar ou que pode ler, escrever e fazer contas…”

“Eu não roubei nada! Foi o filho do homem. Mas nunca tive como provar… Quanto a ler e escrever, meus pais me ensinaram. Diziam que tinham aprendido sozinhos ou qualquer outra coisa. Na verdade nunca me importei, contanto que me ensinassem.”

“Imagino que seus pais ainda estejam vivos…”

“Não, morreram de cólera uns anos atrás. Ainda tenho dois irmãos, mas já estão com as vidas deles organizadas… Agora, por que não me conta alguma coisa de você?”

Uarene baixou os olhos para o fogo. Neles não havia ódio, mas uma tristeza profunda, de quem perdeu mais do que podia aguentar. Pegou um galho e começou a remexer nas brasas.

“Cresci naquela vila que você viu. Me ensinaram quase tudo que sabiam sobre a natureza… Aquilo que seu país chama de bruxaria. Consertava um osso quebrado ali, acabava com uma praga na plantação em outro lugar… Essas coisas… Era uma vida monótona e feliz. Até esta guerra começar… É só o que precisa saber. Agora vamos dormir, temos que sair antes de clarear.”

Apoiou-se num tronco velho e dormiu quase instantaneamente. Caurem fez o mesmo, mas o sono só veio quando pôs a espada envolta em lona ao seu lado.

 ***

Acordaram com os gritos fantasmagóricos dos macacos pouco acima deles e pelo dia todo caminharam sem quase conversar. Uarene diminuiu o passo a fim de evitar que Caurem tropeçasse novamente, mas não pôde evitar pequenas quedas por sua total falta de experiência em mata fechada. À noite, dormiram aos pés de um jequitibá cujo tronco era tão grosso quando uma casa e raízes tão grandes que puderam se abrigar entre elas.

O coro dos macacos parecia segui-los pelos dias seguintes. Às vezes Caurem podia dizer que ouvia o barulho das águas do Tages em algum lugar ali perto para, pouco tempo depois, voltarem ao quase silêncio da floresta. Pela manhã e a noite ouvia o canto de milhares de pássaros saindo e voltando de seus ninhos. E em todas as horas o zumbido e as picadas dos mosquitos o infernizava. Uarene mandou que passasse na pele um preparado de folhas trituradas que amenizou os ataques, mas não por inteiro. De modo que se coçava a maior parte do tempo enquanto caminhavam.

No fim do sexto dia os macacos finalmente foram embora. As árvores agora eram menores e mais espaçadas e um cheiro forte e indefinível impregnava o ar. Por um tempo, preferiu se abster de falar qualquer coisa com Uarene desde que ela revelou aquele ódio assassino contra o exército que destruiu sua vida. Mas a mudança de vegetação o fez se tornar mais confiante, caminhando com passos mais firmes. O que acabou sendo refletido em palavras.

“Então, você não me disse ainda nem o nome do lugar pra onde estamos indo. Só te sigo e não recebo nenhuma informação. Acho que podemos ser um pouco mais abertos entre nós enquanto estamos juntos…”

“Suarana. É um porto no encontro do Tages com o Solima. Recebem todo tipo de mercadoria. Da República, Principados… Qualquer lugar… Por isso deve ser uma das bases do seu exército agora.”

“Acho que agora devo agradecer por dividir isso comigo…”

De repente, Uarene correu para ele e o atirou ao tronco da árvore mais grossa que pôde encontrar. Ela mesmo agarrando-se a outra ao lado, a mão esquerda colada à testa de Caurem.

“Quieto. Não se mexa.”

Por uns poucos segundos sua mente consternada tentava entender o motivo de tudo aquilo. A pressão da mão dela em sua testa… Não demorou muito para distinguir vozes humanas ao longe, se aproximando bem rápido. Pareciam ser dois homens. Quando viu suas minúsculas silhuetas entre as árvores percebeu serem soldados. Sua aproximação revelou os mosquetes nas suas costas e as couraças. Pararam bem a sua frente. Um deles era um rapaz com no máximo vinte anos e um jeito nervoso. As mãos sempre pulando do cabo da adaga para o da pistola. O outro, um velho de cabelos ralos e o rosto cansado. Parecia preferir qualquer coisa a estar no meio da mata. Embora Caurem estivesse apenas encostado à madeira, bem ao alcance da visão dos homens, eles não o notavam. Várias vezes seus olhos se encontraram, mas os soldados pareciam não ver nada além do tronco.

“Pensei ter visto gente andando por aqui agora… Tenho certeza que ouvi vozes!” Disse o mais velho com voz assustada.

“Até agora não vi nada…”

“Devem ser daquele grupo que atacou a gente semana passada. Dizem que conseguem ficar invisíveis… Só assim pra pegar todo mundo de surpresa dentro da cidade! O povo daqui é cheio de bruxarias…”

“E sua cabeça cheia de merda! Para de falar disso senão eu mesmo te faço desaparecer!… Vamos continuar olhando!”

Ao sumirem entre as árvores, Uarene descolou-se do tronco, a mão ainda na testa de Caurem.

“Não saia daqui e fique quieto!”

Saiu na direção em que foram os dois homens. Por longos minutos não ouviu nada além dos sons costumeiros da mata e o canto dos pássaros pouco acima dele. Subitamente ouviu um urro abafado, como de um animal grande sendo abatido. Logo em seguida um tiro. Esquecendo o que lhe mandaram fazer, correu em direção ao som do disparo. Tinha medo que Uarene estivesse morta ou muito ferida. Corria saltando raízes e não se importando com galhos o golpeando por todos os lados. Depois de toda a caminhada, não podia deixar ela morrer agora… Só parou quando viu a própria feiticeira a sua frente, as mãos sujas de sangue e um corte superficial no pescoço.

“Não mandei ficar quieto lá? Sorte que já tinha terminado antes de você chegar. Poderia ter morrido!”

“Não sou um bichinho pra ser mandado pra lá e pra cá!”

“Não, é um soldado que mal sabe andar na mata. Esse monte de feridas não mente! Mal consegue desviar dos galhos… Se eu não estivesse com você, já teria morrido na floresta…”

“Devia ter me deixado naquela vila pra morrer então.”

“É…devia… Quando chegarmos à cidade, pode fazer o que quiser. Até voltar pro exército. Só não espere que eu continue cuidando de você.”

Aquilo doeu fundo nele. Sentia-se inútil, um peso morto. Tinha consciência que nunca fora um bom soldado. Afinal, só se alistou por obra do desespero e da fome e não por vocação para as armas. Aprendeu a atirar e lutar o pouco que sabia não tinha mais uns meses, então o mandaram para esta terra maldita, onde aliados se matam para a glória de um general qualquer. Uma raiva de tudo aquilo começou a crescer dentro dele. Raiva do lugar, do exército, da República… Dele mesmo e de Uarene… Passou o resto do dia pensando se não teria sido bem melhor ter morrido naquela noite louca. Sentia-se profundamente triste. Queria gritar, bater nela. Mas tudo que a tristeza lhe permitiu fazer voltar ao caminho que estavam seguindo.

Poucos quilômetros depois, encontraram a tropa da qual os dois homens teriam pertencido. Relutante, Uarene, passou por eles sem que os vissem. Caurem podia sentir sua raiva aumentar a cada dia. Matar apenas a tornou mais agressiva e distante.

Nos últimos dois dias de viagem não viram mais soldados e não mais conversaram. Estavam muito ocupados ruminando as próprias frustrações. No final da manhã do último dia, a vegetação se abriu, dando lugar a pasto e uns poucos bois espalhavam-se pela área. Por precaução, jogaram os mosquetes e pistolas fora. Uarene não queria ser vista portando armamento da República e não estava interessada que Caurem também fosse visto assim quando entrassem em Suarana. Só levariam a espada embrulhada em lona e uma adaga que ela escondeu na roupa.

Uma guarnição entediada estava numa das entradas da cidade. Passaram sem ser incomodados, confundidos com os trabalhadores que voltavam para casa no final do tarde. Por dentro, Suarana era um emaranhado de ruas de lama e cheiro de peixe e carne de boi. Barracas de madeira mal pregada se enfileiravam bem ali, vendendo tudo que vivia no rio ou na floresta. Uma velha em trapos tentava vender olhos de boto para uma moça. Dizia ser um amuleto de sorte.

“Que tipo de sorte um olho de bicho pode trazer?” Perguntou, surpreso.

“Ah, senhor, muita! Ele faz a pessoa que você ama se apaixonar por você, pra sempre! Mas tem que ter cuidado. A magia é tão forte que pode fazer qualquer um se apaixonar pelo senhor. Até homem…”

A velha deu uma risadinha lasciva e voltou-se para a moça que acabou comprando um. Caurem não queria enfeitiçar ninguém, mas estava se divertindo com a história toda, a ponto de quase comprar um quando percebeu que Uarene não estava mais por perto. Devia ter se misturado à multidão e seguido seu caminho. Ele também tinha que fazer o mesmo… Desistiu do olho de boto e perguntou para a velha se ainda partiam muitos barcos rio acima ou abaixo.

“Sim, bastante. Todo dia chega e vai gente, a maior parte soldados. Estão usando a prefeitura da cidade de quartel e botaram todo mundo pra fora. Agora quem manda são eles…”

Era de se esperar o lugar tomado pelo exército. O problema é saber a mando de quem. Tinha medo de revelar a divisão de que fazia parte. Sabe-se lá o que fariam se não fosse a correta… A melhor opção era ir embora mesmo. Solima abaixo ficava o principado de Meira. Diziam que a cidade cobria uma enorme ilha entre o rio e o mar. Quem sabe não encontraria algo melhor pra fazer lá do que empunhar armas e marchar o dia todo? Não se importava em aprender outra língua e se adaptar a costumes diferentes.

No porto, um pequeno ancoradouro de pedra e madeira, havia dois barcos e dezenas de botes de pescadores. Nenhum parecia pronto para sair em breve. Os marinheiros o informavam que qualquer barco com destino a Meira estava proibido de sair, sob pena de ser abordado e afundado pelo exército.

“É uma merda essa guerra, rapaz. Não nos deixam mais trabalhar em paz… Daqui a pouco vou ter que alimentar minha família com a lama do rio!” Lamentava o capitão de um dos barcos maiores, um sujeito enorme de pele negra e dentes branquíssimos. “Maldita época que resolvi sair de Meira pra esse lugar!… Sim, rapaz, sou de lá e devia ter ficado em casa, essa é a verdade.”

Caurem teve um impulso de perguntar ao homem como era a cidade. Se era verdade que ocupava uma ilha gigantesca, com portos tão grandes que podiam abrigar milhares de navios ao mesmo tempo. Mas o pensamento o fez sentir-se imensamente infantil. Ao invés disso, preferiu saber onde poderia passar a noite.

“No fim daquela rua tem a pensão da Tiena. É cheio de putas e baderneiros a noite toda, mas é o único lugar na cidade onde um soldado não entra. Você tem cara de quem prefere um lugar assim…”

O caminho para a tal pensão já denunciava o tipo de lugar que seria. Nos cantos da rua amontoavam-se bêbados e mendigos de todo tipo. Aleijados e mulheres esfarrapadas com crianças de colo disputavam cada migalha que porventura pudessem jogar para eles. Um homem com a cabeça tomada por queimaduras quase o fez vomitar. Guerra vai, guerra vem e o número de miseráveis só faz aumentar… Quantos desses não deviam a sua miséria à República? Logo também seria um deles se não tomasse uma decisão rápida sobre seu destino. Não havia barcos indo para Meira, então precisava pensar em uma alternativa. Mas agora precisava de um banho e dormir. Com sorte poderia conseguir uma refeição decente. Algo que não envolvesse charque e farinha de mandioca de preferência…

A pensão era o edifício mais dilapidado de toda a rua. A fachada com tijolos velhos à mostra e os restos do que havia sido uma marquise. Plantas de todo tipo cresciam no telhado. Dentro o aspecto não era melhor. Infiltrações brotavam de todo lado, fazendo o lugar cheirar terrivelmente a mofo. Os móveis não passavam de umas poucas cadeiras e mesas de madeira descascada espalhadas pela sala. Numa delas, um homem gordo e careca dormia com a cabeça encostada na mesa. Caurem teve que chamar duas vezes até que o sujeito acordasse, mostrando o rosto e a camisa molhados de suor.

“Boa noite. Gostaria de um quarto. Por acaso tem algum vago?”

O homem demorou a entender o que dizia no seu estupor de sono. Sacudiu a cabeça e deu tapinhas no rosto até conseguir dizer que sim, tinham quartos, e custam dois cobres a noite. Porém todo o seu sono desapareceu quando Caurem jogou as estrelas na mesa.

“Só soldados andam com dinheiro da República… O que me faz pensar que você é um deles ou matou alguém pra conseguir isso.”

“Eu… não sou soldado nem ladrão… Fiz um serviço pro exército e me pagaram com isso.”

“O que te torna um safado traidor, que é bem pior. Mas não vou negar o dinheiro. Ando precisado dele… Só não me venha ser morto no meio da noite. Não tenho mais idade pra arrastar seu corpo pro rio. Mas quero que vá embora daqui antes de amanhecer!”

O homem o levou para um quarto quente e úmido, com janela voltada para a rua. A cama tinha o aspecto de ter sido usada várias vezes e para fins que Caurem preferiu não especular. No canto da parede, viu uma pequena bacia. Com a permissão para pegar água numa bica no quintal, tão logo o homem voltou para a entrada, pegou dois baldes e desceu para os fundos da casa. Ao passar pela cozinha um cheiro forte de gordura queimada o golpeou em cheio. Lá dentro, uma mulher tão gorda quanto o homem de antes, provavelmente sua esposa que dava nome à pensão, fritava pedaços de toucinho. Passou por ela com um cumprimento rápido e ganhou o quintal.

A água não era bem o que esperava. Tinha um cheiro forte de mangue e um gosto amargo, mas era melhor que continuar sujo. Havia conseguido uns pedaços de torresmo com Tiena e planejava comê-los com o que restou do charque. Não teria escolha a não ser usar as mesmas roupas sujas, mas estava decidido a fazer isso apenas pela manhã. Até porque já transpirava o suficiente naquele quarto abafado. Sentado nu no colchão sem lençol mastigava os bocados de charque e torresmo com indiferença. Suor já escorria pelas suas costas. Esperava ter sorte de conseguir um barco amanhã para qualquer lugar longe dali. O dono da pensão já demonstrou o quanto eram hostis com os soldados e não tinha esperança de melhor tratamento do destacamento estacionado na cidade. Tinha que ir pra longe dali, o mais rápido possível. Deitou-se com esse pensamento martelando sua cabeça.

Estava quase caindo no sono quando ouviu um estrondo ao longe. De início não deu importância, mas em pouco tempo a rua inteira estava cheia de gente gritando. “Explodiram o paiol e os soldados estão correndo como loucos de um lado para o outro” era o resumo das conversas embaixo da sua janela. Pareciam todos muito assustados enquanto Caurem se recusava a levantar-se. Esse povo resolveu fofocar logo agora em que estava quase a dormir e não iria se importar com o que quer que fosse até de manhã, decidiu.

O sono não durou muito. Acordou com passos pesados no fundo do corredor. Sem pensar, pulou da cama, pegou a roupa e a espada. Tinha total certeza de serem soldados da República e não esperava que o dono da pensão o protegesse. Nenhum soldado entra aqui, disse o homem. Ou mentiram pra ele ou tinha a pior sorte do mundo. Vestiu-se o mais rápido que pôde e olhou pela janela. Não era muito alta. Com sorte não iria se machucar muito. As pessoas da rua foram dispersas e só restavam os pedintes e bêbados de sempre. Os passos terminaram bem a frente da sua porta. Não tinha mais tempo para pensar. Pulou. A queda o fez torcer o tornozelo e quase gritar de dor, mas não tinha tempo pra isso. Arrastou-se pela rua até um beco onde um grupo de mendigos dormia, esperando que ninguém mais o tivesse visto. Quando a dor arrefeceu um pouco, correu dali o mais rápido que pôde.

Nas ruas os soldados ainda estavam agitados, entrando em todos os prédios e revistando quem passava por eles. Caurem preferiu continuar nos becos, evitando as ruas com movimentação. A esta altura todas as saídas da cidade e o porto estavam sob forte vigia. Quem quer que tenha explodido o paiol deveria estar se escondendo como ele, esperando o movimento diminuir.

Passou uma hora ou mais encolhido num canto escuro e cheio de lixo quando percebeu que algo estava diferente. Os soldados não faziam mais buscas. Todos corriam apressados para a prefeitura transformada em quartel. Alguém devia estar atacando.

Qualquer pessoa normal aproveitaria o momento para fugir pra bem longe, pensava enquanto corria na mesma direção dos soldados. Tinha certeza que Uarene estava envolvida, embora não pudesse dizer de onde tirou essa conclusão se alguém lhe perguntasse. Apenas sabia. Acompanhou os homens, tomando cuidado para não ser visto. Quando chegou, viu que havia dois guardas mortos perto do portão e outros dois com rostos tensos os substituindo. Deu a volta no muro e pulou numa parte que julgou menos vigiada. O pátio estava vazio e o sobrado de três andares com todas as luzes apagadas. Podia ouvir os gritos dos homens lá dentro. Correu para as sombras do casarão, entrando por uma janela semiaberta. Do quarto onde entrou podia ouvir claramente as vozes vindas de cima.

Só lá dentro lhe veio a ideia do quanto era estúpido entrar ali, ainda mais desarmado. Lembrou-se da espada que trazia desde o incidente na vila e a desembrulhou. O negrume de sua lâmina pareceu escurecer ainda mais o ambiente ao mesmo tempo em que lhe dava confiança. Com ela em punho esgueirou-se pela casa. Considerou-se com sorte por encontrar apenas um no caminho, e felizmente já morto, perto da escada. Todos estavam mesmo no terceiro andar. Viu dez homens tentando arrombar uma porta sem sucesso. Não pensava noutra explicação pra isso a não ser Uarene. Ela tinha que estar ali. E o que ela queria trancada ali?

De repente, ouviu um grito e depois um baque surdo vindos do outro lado. Os homens entraram em desespero e finalmente o viram no fim do corredor. Por muito pouco conseguiu se proteger dos tiros dos mosquetes, mas agora precisava derrubá-los antes de terem chance de dispararem novamente. Não podia vencer uma luta contra tantos soldados. Mas se tinha uma chance remota, ela seria dada pelo corredor estreito. Correu em direção a eles gritando a plenos pulmões. O que deixou os homens surpresos por tempo suficiente para cravar a espada no primeiro.

A lâmina passou estraçalhando carne e osso no seu caminho. Caurem tinha-a feito atravessar o peito do soldado com toda a força. Cada veia partida, cada músculo destruído, cada osso estilhaçado, sentido por ele também. A dor e o desespero do homem agonizante tornando-se a sua, acompanhada de uma satisfação tão escandalosa que preferia pensar somente no sofrimento que sentia ao matar aquele homem. Mesmo assim, dor e prazer estavam perigosamente próximos dentro dele. E assim golpeou o segundo e o seguinte. Homens armados caíam ao seu redor sem tempo de reagir. Tão rápido que não parecia humano.

Só deu-se conta do que havia feito quando o último morreu. A espada cravada em seu pescoço. Caurem estava coberto de sangue. Assustado demais com a própria selvageria e o prazer que teve através dela. Mesmo assim não largou a lâmina. Ao contrário, sua mão a apertava ainda mais. Lembrou-se da porta e do porque de estar ali. Como se seu corpo tivesse vontade própria, chutou a porta com tanta força que seus pedaços foram parar além da janela.

Uarene estava lá sim. Encolhida num canto para se proteger da madeira que voou em sua direção. Havia surpresa em seus olhos por descobrir Caurem ali, coberto de sangue como um deus raivoso, dono de uma força capaz de quebrar um dos seus feitiços mais fortes. Mas além da surpresa havia ódio. Ódio que a fez jogar o oficial comandante pela janela com uma corda amarrada ao pescoço. Que a faria espalhar o terror em meio à soldadesca durante toda a noite. Caurem bebeu longa e deliciosamente aquele ódio. Era uma iguaria como nunca provou e ao mesmo tempo o amedrontava até o fundo a alma. Não poderiam continuar nessa loucura… Juntando todo o alto controle que lhe sobrou, agarrou a mulher pelo braço e a arrastou para a saída.

“Não! Me solta! Eu vou matar esse monte de filhos da puta hoje!”

“Chega…Uarene… Chega…”

“Se não me soltar, mato você também seu desgraçado!”

Caurem largou o seu braço e olhou bem fundo nos seus olhos. A sensação inebriante de sua raiva derramando-se sobre ele. Contudo, seu medo era maior agora e tudo que desejava era sair dali o mais rápido possível. Foi a primeira vez que sentiu medo vindo dela, como se tivesse visto algo terrível nele. Sem palavras, caminharam juntos até o pátio.

Era como se toda a tropa do lugar estivesse ali ao mesmo tempo. Gente que a escuridão da noite impedia de saber exatamente o número. Caurem avançou sem que Uarene pudesse segurá-lo e despedaçou três soldados num piscar de olhos. Horrorizados com a cena, todos os outros fugiram em desespero. Muitos ainda encontraram a morte na lâmina negra até que os dois pudessem ganhar a rua e correr desesperados pelos becos escuros. Iam em direção à saída mais próxima quando encontram com um grupo de soldados que fugira do massacre. Desta vez Uarene conseguiu segurar a fúria de Caurem jogando-o num beco e cobrindo-o com o seu corpo enquanto murmurava um encantamento. Ele parecia ter se acalmado finalmente. Ainda caminharam mais um pouco quando uma figura os chamou de trás de uma janela.

“Ei, vocês, aí! Sim… São vocês mesmo. Os dois que atacaram a prefeitura! Não precisam ficar assustados, não sou do exército. Entrem aqui. Rápido!”

A princípio desconfiaram daquela oferta. Mas não era possível que soldados assustados pudessem tramar uma armadilha com tanta rapidez. Com cuidado abriram a porta. A luz interior revelou uma velha, a vendedora de olhos de boto. Com o mesmo sorriso lascivo de mais cedo ela os fez irem até o interior da casa.

“A gente estava planejando atacar a muito tempo, mas vocês fizeram esse favor antes pra nós… Quantos daqueles filhos da puta você matou, rapaz? Vinte, trinta? Ah, não importa! Inimigos da República são nossos amigos.”

Caurem voltava de seu transe de medo e violência para ver-se taxado de inimigo da República. Não era isso que esperava, não era assim que se sentia. Nunca quis ser inimigo de ninguém. Nunca quis matar ninguém!

“Sou um soldado da República, não inimigo!”

A velha de uma gargalhada alta e tirou uma cadeira do lugar para revelar um alçapão.

“Claro que são, rapaz! E pelo estrago que fizeram eles não vão sossegar enquanto não matarem vocês dois da forma mais horrível que puderem. Entrem aqui e sigam o túnel. Do outro lado tem gente esperando. Ou podem sair e enfrentar os soldados de novo. Vocês escolhem.”

 

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O temor do sal (completo)

(Sim, tomei vergonha e terminei esta benga!)

Diário da expedição de Portú Anhaguara – primeiro dia.

Chegamos ao fim da tarde na pequena vila de Cauinan, às margens do lado do mesmo nome. Foram quase dois meses de viagem de Maache até aqui, rumando sempre para o sul, acompanhando o sopé da Cordilheira a oeste. Ontem, ao alcançarmos as cercanias desta região, as montanhas subitamente se afastaram ainda mais a oeste, deixando uma paisagem completamente plana a nossa volta. De vegetação, apenas plantas rasteiras e uma ou outra árvore isolada. Os animais que vimos eram em sua maioria de pequeno porte, como lebres.

A vila em si é um lugar pobre, onde os habitantes vivem primariamente da pesca no lago e criação de animais. Nas casas de pau a pique existem pequenos canteiros onde cultivam ervas e milho. Parece que eles não se importam em ter nada mais. Um povo bem simples, eu diria. E que não demonstram muito apreço por nós. Não são hostis, mas também nem um pouco amigáveis. Desde que chegamos, têm nos olhado com desconfiança. E quando contei ao líder do povoado que estávamos indo explorar o deserto ele nos olhou como se fôssemos um bando de condenados indo para execução. Era de se esperar que as pessoas aqui neste fim de mundo se aferrassem tanto a superstições antigas e sem lógica. Mas encontrei muitas pessoas irrefutavelmente cultas e de pensamento moderno compartilhando dos mesmos medos irracionais. Pior, essas mesmas pessoas seriam fundamentais para financiar esta expedição!

Desde que comecei meus estudos, ainda muito jovem, me interessei por história antiga. E o que hoje chamamos de Deserto de Sal há muitos anos abrigou uma civilização já desaparecida. Li muitos textos sobre esse povo, mas nada conclusivo, pois ninguém explorou o deserto em profundidade, apenas recolheram restos nas suas bordas. O relato mais interessante foi o de um viajante chamado Reno Diantac, que escreveu ter caminhado por dias deserto adentro onde viu ruínas que pareciam ser de cidades. Mas ninguém toma esses textos à sério, já que ninguém viajou até lá. Minha expedição será a primeira que seguirá uma das direções propostas por Diantac; uma pequena povoação às margens de um lago seco cujas construções seriam de pedra nua, por isso, ainda visíveis.

E pensar que consegui convencer todos de que esta viajem seria lucrativa! Só prometendo ganhos muito maiores que os riscos presumidos para conseguir o financiamento… Ainda que tanto os lucros quanto os riscos sejam altamente improváveis. Mas ninguém precisa saber disso. Que todos pensem que vamos até onde seria uma antiga povoação onde haveria depósitos de prata. Ou melhor, que os guias procurem as minas. Prefiro me deter em matérias mais interessantes…

Dizem que o lugar é amaldiçoado, pois foi o palco da luta de Clauapec contra os seres que vieram do mar a oeste. Algumas lendas dizem que esses seres eram homens gigantes, outras, apenas monstros. Afinal, a lenda é adaptável a cada povo que acha melhor exaltar ou mudar certas coisas. Pessoalmente, não acredito em nenhuma delas. Esse tipo de história tem se provado um entrave para o aumento do entendimento que temos do mundo, por isso não deveriam mais ser encorajadas. Mas que se pode fazer, se quem as encoraja são justamente os que deviam fazer o contrário?

Às vezes acho que as pessoas ainda não deixaram de ser criaturas semi-animalescas, acreditando em qualquer besteira que digam a elas, desde que o façam desde a infância e frequentemente. Eu mesmo já acreditei em muitas coisas, e me foi muito custoso abandonar essas crenças em favor de um modo de pensamento racional.

Chega de pensar nisso, senão vou me irritar e não conseguir dormir direito. Amanhã atravessaremos o lago e iniciar a verdadeira jornada dentro do Deserto de Sal.

Melhor tomar meu remédio e deitar.

Diário da Expedição de  Portú Anhaguara – segundo dia.

Antes do sol nascer, subimos nos barcos dos pescadores. Tivemos que deixar a maioria dos animais em terra, pois as pequenas embarcações não agüentariam a carga e eles ao mesmo tempo ou teríamos que fazer várias viagens de ida e volta, o que nos atrasaria enormemente. O chefe dos carregadores então decidiu que somente as mulas mais fortes iriam atravessar o lago, pois seriam indispensáveis para carregar a maior parte do suprimento. O resto seria dividido entre todos. Eu mesmo tive que carregar meus próprios instrumentos e deixar todos os livros no vilarejo. Só me sobrou um pouco para escrever este diário e umas anotações indispensáveis sobre as direções que tomaríamos. Ainda estou profundamente irritado com tudo isso, mas ou era deixar boa parte das coisas na vila ou esperar mais dois dias para atravessar o deserto. Há décadas tenho esperado por esta viajem, e não será agora que isso irá me parar, quando estou realizando meu sonho.

Enquanto os nativos nos levavam pelo lago, disseram que havia uma ilha no meio dele onde costumavam parar para e armar suas redes. Acreditavam que ali era um bom lugar de pesca. Não demorou muito para eu descobrir que a intenção deles era parar no maldito lugar e pegar as redes que haviam deixado lá ontem. Só isso iria nos tomar mais horas preciosas do dia!

Minha irritação deveria ter sido palpável no momento que chegamos à ilha, imagino. Tanto que, a fim de me consolar, um deles me disse que havia um velho templo ali, já em ruínas, onde eles cultuavam seja lá que deus seja. Esses idiotas achavam que eu me interessaria por qualquer parede velha caída! Mas como não tinha mais nada a fazer, pedi para dois carregadores me acompanharem e fui até lá.

O tal templo ficava mais ou menos uns quinhentos metros da praia em linha reta, circundado por árvores surpreendentemente grandes e altas para a região. Certamente trazidas por quem o construiu há séculos atrás. Depois das árvores, não havia nada mais que pilhas de pedras caídas no chão. De vez em quando um arremedo de parede e no seu centro algo que lembrava um altar. Nele, havia inscrições que eu não pude identificar, muito diferentes dos troncos lingüísticos predominantes nesta área do continente. Pela primeira vez cheguei à conclusão de que essa visita forçada à ilha não era de todo ruim. Embora os escritos fossem intraduzíveis para mim, fiz o possível para copiá-los num pergaminho. Depois mandei os carregadores vasculharem os arredores atrás de instrumentos religiosos. Eu continuei perto do altar, caminhando em torno dele, tentando encontrar algo comum naqueles grafismos. Algo que eu pudesse interpretar. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas quando percebi o sol já tinha ido embora, e com ele boa parte da luz. Cansado, sentei-me numa pedra ao lado do altar, numa última tentativa de encontrar algum padrão reconhecível. Foi quando reparei que havia um pequeno buraco nele, revelado pela luz do entardecer. Chegando mais perto vi que o buraco era na verdade um compartimento, agora lacrado pelas pedras. Sem pensar peguei a pedra mais pesada que pude levantar e joguei contra o altar uma, duas, três vezes. Joguei tantas vezes que, ao conseguir abri-lo, estava tão cansado e com os braços doendo que mal pude tirar o que havia ali dentro.

Sim, ainda havia algo lá! Meu coração ainda pula ao lembrar esse momento! Era uma espécie de punho de adaga ou espada, certamente para uso cerimonial, totalmente branca, de um material tão leve e resistente que até hoje não tinha visto. Toda sua superfície era entalhada como se fosse uma serpente alada, mas com penas ao invés de escamas. E onde o punho encontraria a lâmina, estava a cabeça dessa serpente, esculpida como se estivesse devorando o metal. Era linda de se ver e grande o suficiente para que fosse pega com ambas as mãos! Com certeza foi usada em rituais de sacrifício no passado, muito provavelmente humanos.

A luz já havia se acabado quando um grupo de pescadores e carregadores me encontrou ainda ao lado do altar. Quando os percebi chegando, tratei de logo esconder meu achado na bolsa e começar o discurso de que estava muito entretido em descobrir o que estava escrito no altar e, por isso, perdi a noção do tempo. O que de fato não era mentira, mas não toda a verdade. Ao voltar à praia, descobri que todos já tinham partido para a outra margem e somente aquele grupo havia ficado para me buscar, uma vez que eu era o único que, supostamente, sabia as direções dentro do deserto. Chegamos ao acampamento já madrugada alta. Haviam preparado uma tenda para mim e nela colocaram todas as coisas que pude levar na travessia. Tomei meus remédios noturnos, mas não consegui descansar. Nas mãos, o punho que encontrara. Decidi que seria melhor escrever sobre isso no diário, embora não tenha intenção de mostrar a ninguém. Lá fora, já começam a acordar.

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Quinto dia.

Não houve nada diferente nos últimos dias, apenas a imensidão branca a encontrar-se com o céu no horizonte. A oeste, a pálida e minúscula sombra da Cordilheira. Os dias eram tediosos e frios e a caminhada acompanhada do som das placas de sal quebrando sob nossos pés.

Depois de atravessarmos o Lago Cauinam, tomamos a direção sudoeste e nela procuramos permanecer até agora, usando o sol e as estrelas como guias. Não havia marcas geográficas na região como montes, rios ou depressões. Nem mesmo um mísero pedregulho solto. Apenas o sal branco, liso e plano, em todas as direções. Por vários momentos, temi estarmos na direção errada. Na verdade ainda temo isso. Já sei que alguns carregadores não estão nada felizes em participarem desta viagem desde o começo. Têm profundo medo das lendas que cercam este deserto e já flagrei vários rezando baixinho enquanto a caravana marchava, os olhos tensos virando-se para todo lado a procura de uma ameaça.

No começo, propus que viajássemos durante a noite, a fim de aproveitar melhor as direções dadas pelas estrelas. Mas fui voto vencido pelos líderes dos carregadores, amedrontados demais com a possibilidade de caminharem indefessos pelo deserto no escuro. Juro que, se pudesse, teria vindo a este lugar sozinho! É horrível estar preso aos medos irracionais dessa gente. Devem ter prometido uma bela soma para que esse povo aceitasse vir e, mesmo assim, tenho certeza que vários agora trocariam essa soma por qualquer lugar bem longe daqui… Enfim, me resignei a parar a noite e tatear o caminho pelo movimento do sol durante o dia. Não havia nada a fazer quanto a isso.

Assim, passei a dedicar as paradas noturnas a examinar o punho de espada que encontrei no templo. Não era nada parecido com qualquer objeto cerimonial que conheci ou ouvi falar em toda minha vida. Muitos destes tinham também figuras de serpentes e outros animais, contudo, não estavam colocados em posição de evidência, esta sempre reservada a seres humanos. Uma curiosidade em todas essas figuras anteriores é que os seres representados eram reais, com os quais as pessoas tinham contato diário. Não me lembro de ter visto a representação de um ser fantástico em todos os meus anos de pesquisa. O máximo que encontrei está nas histórias derivadas da lenda de Clauapec, onde seus inimigos eram representados apenas como uma grande escuridão ou névoa cheia de olhos. Fora isso, nenhuma outra criação de pura imaginação.

Algo contraditório vindo de um povo que teme sei lá o que num deserto!

Mas este punho!…  Ele conta outra história da que estávamos acostumados a acreditar. Talvez tenha existido um povo aqui cultuando figuras puramente imaginárias, até com uma base de mitos religiosos totalmente alheios ao que hoje existe. Por que esses mitos desapareceram assim sem deixar vestígio nas mentes das pessoas? O fato é que o punho está aqui, ignorando totalmente minhas hipóteses como um professor ouvindo explicações erradas de um aluno. Um objeto com textura aveludada, resistência de ferro, peso quase inexistente e branco profundo… Um enigma a caçoar de mim todas as noites. Desde que o encontrei não consigo deixar de me intrigar com ele.

Uma serpente alada com penas…

O que era essa criatura para esse povo? Que mitos foram criados ao redor dela? Talvez as respostas estejam naqueles símbolos no altar onde a encontrei. Mas terei que esperar voltar à capital e encontrar um especialista em línguas antigas. Isso se algum deles souber que língua vem a ser aquela…

Pesquisando as estrelas agora, creio que estamos perto do nosso destino. Não deve demorar mais que um ou dois dias para chegarmos. A cada passo sinto-me mais agitado e os homens mais amedrontados.

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Décimo segundo dia.

Há três dias finalmente encontramos os restos de um povoado no meio do deserto. As casas remanescentes eram realmente todas feitas de pedra. Algumas ainda suficientemente conservadas para nos abrigar. Logo de início, insisti para que eu tivesse uso exclusivo de uma delas para estudo, no que fui prontamente atendido. A maioria dos homens preferiu armar barracas do lado de fora das ruínas e apenas uns poucos tiveram coragem de dormir dentro do povoado comigo.

Escolhi uma casa que ficava bem no meio do povoado, ao lado do que parecia ter sido uma praça. Entrei, joguei minhas coisas num canto, com exceção da minha bolsa, e mandei que arrumassem tudo até eu voltar. Queria muito explorar o lugar antes do sol se pôr.

À primeira vista, o lugar batia com as descrições de Reno Diantac, pelo menos na parte arquitetônica. Mas não pude identificar nenhum resquício de lago ou qualquer outra fonte de água para suprir o povoado. Esse lugar deve ser tão velho que nem mesmo restos de poços ficaram. Admira-me algumas casas ainda estarem de pé…

Além do amontoado de ruínas, não existe mais nada que imensidão branca. Qualquer esperança da expedição de encontrar alguma riqueza foi esfacelada quando chegamos. Não existe nada mais valioso aqui do que velhos pratos de metal, vasos quebrados e mais incontáveis quinquilharias espalhadas por todos os cantos. Em alguns lugares há vasos tão arrumados que me fazem pensar que as pessoas saíram daqui sem levar nenhum pertence. Quando voltei à casa onde me instalei, essa sensação se fortaleceu. Não havia percebido, até àquela hora, que tudo que não fora consumido pelo tempo estava cuidadosamente posto em seus lugares. Somente uma ou outra peça de cerâmica quebrada aqui e ali. As pessoas daqui pareciam ter deixado o lugar apenas com a roupa do corpo… Sim, pois não encontrei vestígios de cemitérios ou corpos. Não havia nada que denunciasse presença humana a não ser pelas construções e utensílios. Ou talvez não tenha tido tempo suficiente para procurar, com o sol já se pondo.

Amanhã espero encontrar algo mais interessante.

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Décimo terceiro dia.

O amanhecer trouxe um vento frio vindo do sul que levantou a poeira na vila golpeando nossos rostos junto com pedaços de sal. Logo que o sol nasceu, comi qualquer coisa e organizei os homens para uma exploração geral das construções. Passei boa parte da manhã tentando fazer com que aqueles brutos não destruíssem mais ainda o lugar. Os sujeitos simplesmente jogavam pedras de um canto para outro, e qualquer coisa que não lhes parecesse valioso como se fosse lixo. No caso, tudo era lixo para eles, uma vez que não eram ouro nem prata. Nem quero pensar nas informações que perdi por conta disso!

Não demorou muito tempo até de descobríssemos vestígios dos aldeões. Para meu azar não foram simples tumbas, mas um amontoado de esqueletos espalhados por uma área que pode ter abrigado um salão, enterrados no sal pelo tempo. Os ossos apresentavam quase todos sinais de terem sido cortados ou partidos por um instrumento muito afiado. Possivelmente espadas, embora eu não tenha visto uma arma cortar um osso com tal precisão até hoje… Imagino que as técnicas usadas para confeccionar tais armas tenham sido perdidas junto com esse povo. Creio que houve algum levante no lugar que gerou esse massacre. Tudo indica terem sido emboscados ali e mortos a sangue frio por seus algozes, por certo um bando de ladrões. Esse pode ter sido o motivo da cidade estar ainda cheia de utensílios pessoais e nenhum metal ou pedra preciosa.

Infelizmente meus homens não puderam chegar a essas conclusões lógicas. Logo ao encontrar as ossadas, alguns já saíram correndo loucos em direção ao deserto e não voltaram. Muitos caíram ajoelhados, rezando. Por isso tive que examinar os restos sozinho até o anoitecer.

Quando voltei, um dos carregadores me disse que os homens haviam encontrado uma espécie de poço lacrado por uma grande pedra circular. Mandei que tentassem abri-lo amanhã. Não quero perder a chance de encontrar água neste lugar, já que nossas provisões não vão nos permitir ficar muito mais tempo.

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Décimo quarto dia.

Hoje todos se dedicaram pura e simplesmente a tentar tirar a enorme pedra em cima do poço. Voltei ao local das ossadas sozinho, uma vez que ninguém além de mim ousava se aproximar de lá. Não havia muito para ver, apenas o mesmo de ontem. Crânios cortados ao meio de modo excepcionalmente preciso, cujas áreas atingidas pareciam ter sido polidas com esmero. Quanto mais olhava tudo aquilo menos pensava num simples trabalho de ladrões do que num elaborado ritual. Contudo, ainda não tinha informações suficientes.

Pelo meio da tarde, um homem me procurou dizendo que conseguiram abrir o poço e duas pessoas iam descer já que não haviam encontrado água. Respondi um “tudo bem” desinteressado e voltei ao meu trabalho. Ainda havia muito a fazer…

Voltei quando já escuro e me disseram que os homens que desceram não voltaram nem deram resposta. Alguém sugeriu que a corda pudesse ter arrebentado e eles estejam presos lá embaixo. Jogaram outra maior, mas não obtiveram nenhuma reação também. Falei para esperarem amanhecer antes de fazer qualquer outra coisa. Nesta escuridão seria impossível mandar alguém descer e ver o que aconteceu.

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Décimo quinto dia, sete da noite.

Os homens estão nervosos. Logo pela manhã desceram mais dois ao poço. Do mesmo modo passou-se quase todo o dia sem nenhuma resposta. Quando começou a anoitecer os que estavam ao lado do buraco disseram ter ouvido gritos lá no fundo.

Rapidamente todo o acampamento entrou em pânico. Os mais covardes tentaram roubar as mulas restantes para fugir. A maioria sendo impedida pelos outros, mas mesmo assim, perdemos muitos bons animais. Penso como vão conseguir sobreviver ao deserto sozinhos. Mas o medo nos torna irracionais…

Agora mesmo os carregadores decidiram que amanhã cedo irão arrumar tudo e partir dali. Não tive opção a não ser concordar ou ser deixado aqui sem suprimentos. E sinto que tinha ainda tanta coisa a ser feita! Malditas crendices idiotas! Tenho certeza que aqueles sujeitos lá embaixo escorregaram num musgo e bateram a cabeça numa pedra.

Não adianta reclamar agora. Melhor arrumar minhas coisas e descansar.

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Décimo sexto dia.

Os gritos de desespero dos homens na noite me acordaram. Desorientado, saí da casa e os vi correndo para todos os lados, pegando o que podiam e fugindo de sei lá o que. Só me dei conta do que acontecia quando vi um sujeito que passava correndo a minha frente ter sua cabeça cortada num instante. Não havia ninguém com uma espada ao seu lado!

Corri para dentro e peguei o que pude junto com minha bolsa. Do lado de fora, pedaços de corpos espalhados pelo chão. Nesse momento os ossos me voltaram à mente… Foram cortados de forma muito semelhante… Pensamento chegou e se foi, pois tinha que fugir daquele inimigo invisível. A maioria dos carregadores estava morta ou gritando em agonia. Tropeçando entre corpos, consegui alcançar uma mula totalmente assustada com tudo aquilo, lutando para se desvencilhar da corda que a prendia a uma pedra. Tentei desamarrá-la, mas logo recebi um coice que me jogou ao chão, sem fôlego e quase desacordado. A mula arrebentou a corda afrouxada e fugiu na escuridão.

Foi quando senti uma presença ao meu lado. Virei-me e não havia nada, apenas o escuro da noite, embora com toda certeza houvesse algo ali. Arrastei-me o máximo que pude para longe, o que não passou de uns poucos metros. Exausto, me joguei ao chão esperando a morte, da minha bolsa caiu o punho branco que encontrei dias atrás. Sem pensar o agarrei com as duas mãos e virei-me com ele preso ao meu peito. Queria encarar o meu assassino ou tinha enlouquecido naquela hora, não sei. Contudo, não havia nada a minha frente. Apenas uma presença ameaçadora. Senti algo gelado e duro tocar minha mão e deslizar até o punho branco. Ao tocá-lo, subitamente desapareceu, e eu finalmente desmaiei.

Quando acordei, o sol já estava alto e tudo que restava do acampamento eram corpos mutilados. Não havia sinal de mais ninguém com vida. Fiquei sentado, em choque, por quase todo o dia na porta da casa onde me instalei. Não fazia idéia do que fazer nem como sair dali antes do anoitecer, quando certamente aquelas coisas voltariam. Então comecei a escrever isto, para tentar clarear os pensamentos e ter certeza que não estou num pesadelo. Ao que tudo indica, parece que não.

Agora há pouco, vi uma das mulas voltar, procurando comida. Acho que vou pegar o que resta dos suprimentos e tentar sair daqui o quanto antes. Sozinho…

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O temor do sal

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Quinto dia.

Não houve nada diferente nos últimos dias, apenas a imensidão branca a encontrar-se com o céu no horizonte. A oeste, a pálida e minúscula sombra da Cordilheira. Os dias eram tediosos e frios e a caminhada acompanhada do som das placas de sal quebrando sob nossos pés.

Depois de atravessarmos o Lago Cauinam, tomamos a direção sudoeste e nela procuramos permanecer até agora, usando o sol e as estrelas como guias. Não havia marcas geográficas na região como montes, rios ou depressões. Nem mesmo um mísero pedregulho solto. Apenas o sal branco, liso e plano, em todas as direções. Por vários momentos, temi estarmos na direção errada. Na verdade ainda temo isso. Já sei que alguns carregadores não estão nada felizes em participarem desta viagem desde o começo. Têm profundo medo das lendas que cercam este deserto e já flagrei vários rezando baixinho enquanto a caravana marchava, os olhos tensos virando-se para todo lado a procura de uma ameaça.

No começo, propus que viajássemos durante a noite, a fim de aproveitar melhor as direções dadas pelas estrelas. Mas fui voto vencido pelos líderes dos carregadores, amedrontados demais com a possibilidade de caminharem indefessos pelo deserto no escuro. Juro que, se pudesse, teria vindo a este lugar sozinho! É horrível estar preso aos medos irracionais dessa gente. Devem ter prometido uma bela soma para que esse povo aceitasse vir e, mesmo assim, tenho certeza que vários agora trocariam essa soma para estar bem longe daqui… Enfim, me resignei a parar a noite e tatear o caminho pelo movimento do sol durante o dia. Não havia nada a fazer quanto a isso.

Assim, passei a dedicar as paradas noturnas a examinar o punho de espada que encontrei no tempo. Não era nada parecido com qualquer objeto cerimonial que conheci ou ouvi falar em toda minha vida. Muitos destes tinham também figuras de serpentes e outros animais, contudo, não estavam colocados em posição de evidência, sempre reservada a seres humanos. Uma curiosidade em todas essas figuras anteriores é que os seres representados eram reais, com os quais as pessoas tinham contato diário. Não me lembro de ter visto a representação de um ser fantástico em todos os meus anos de pesquisa. O máximo que encontrei está nas histórias derivadas da lenda de Clauapec, onde seus inimigos eram representados apenas como uma grande escuridão ou névoa cheia de olhos. Fora isso, nenhuma outra criação de pura imaginação.

Algo contraditório vindo de um povo que teme sei lá o que num deserto morto!

Mas este punho!…  Ele conta outra história da que estávamos acostumados a acreditar. Talvez tenha existido um povo aqui cultuando figuras puramente imaginárias, até com uma base de mitos religiosos totalmente alheios ao que hoje existe. Por que esses mitos desapareceram assim sem deixar vestígio nas mentes das pessoas? O fato é que o punho está aqui, ignorando totalmente minhas hipóteses como um professor ouvindo explicações erradas de um aluno. Um objeto com textura aveludada, resistência de ferro, peso quase inexistente e branco profundo… Um enigma a caçoar de mim todas as noites. Desde que o encontrei não consigo deixar de me intrigar com ele.

Uma serpente alada com penas no lugar de escamas…

O que era essa criatura para esse povo? Que mitos foram criados ao redor dela? Talvez as respostas estejam naqueles símbolos no altar onde a encontrei. Mas terei que esperar voltar à capital e encontrar um especialista em línguas antigas. Isso se algum deles souber que língua vem a ser aquela…

Pesquisando as estrelas agora há pouco, creio que estamos perto do nosso destino. Não deve demorar mais que um ou dois dias para chegarmos. A cada passo sinto-me mais agitado e os homens mais amedrontados.

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O temor do sal

Diário da Expedição de Portú Anhaguara – Segundo dia.

Antes do sol nascer subimos nos barcos dos pescadores. Tivemos que deixar a maioria dos animais em terra, pois as pequenas embarcações não agüentariam a carga e eles ao mesmo tempo ou teríamos que fazer várias viagens de ida e volta, o que nos atrasaria enormemente. O chefe dos carregadores então decidiu que somente as mulas mais fortes iriam atravessar o lago, pois seriam indispensáveis para carregar a maior parte do suprimento. O resto seria dividido entre todos. Eu mesmo tive que carregar meus próprios instrumentos e deixar todos os livros no vilarejo. Só me sobrou um pouco para escrever este diário e umas anotações indispensáveis sobre as direções que tomaríamos. Ainda estou profundamente irritado com tudo isso, mas ou era deixar boa parte das coisas na vila ou esperar mais dois dias para atravessar o deserto. Há décadas tenho feito esse tipo de decisão unicamente para esta viajem, e não será agora que isso irá me parar, quando estou realizando meu sonho.

Enquanto os nativos nos levavam pelo lago, disseram que havia uma ilha no meio dele onde costumavam parar para e armar suas redes. Acreditavam que ali era um bom lugar de pesca. Não demorou muito para eu descobrir que a intenção deles era parar no maldito lugar e pegar as redes que haviam deixado lá ontem. Só isso iria nos tomar mais horas preciosas do dia!

Minha irritação deveria ter sido palpável no momento que atracamos na ilha, imagino. Tanto que, a fim de me consolar, um deles me disse que havia um velho tempo ali, já em ruínas, onde eles cultuavam seja lá que deus seja. Esses idiotas achavam que eu me interessaria por qualquer parede velha caída! Mas como não tinha mais nada a fazer, pedi para dois carregadores me acompanharem e fui até lá.

O tal templo ficava mais ou menos uns quinhentos metros da praia em linha reta circundado por árvores surpreendentemente grandes e altas para a região. Certamente trazidas por quem o construiu há séculos atrás. Depois das árvores, não havia nada mais que pilhas de pedras caídas no chão. De vez em quando um arremedo de parede e no seu centro algo que lembrava um altar. Nele, havia inscrições que eu não pude identificar, muito diferentes dos troncos lingüísticos predominantes nesta área do continente. Pela primeira vez cheguei à conclusão de que essa visita forçada à ilha não era de todo ruim. Embora os escritos fossem intraduzíveis para mim, fiz o possível para copiá-los num pergaminho. Depois mandei os carregadores vasculharem os arredores atrás de instrumentos religiosos. Eu continuei perto do altar, caminhando em torno dele, tentando encontrar algo comum naqueles grafismos. Algo que eu pudesse interpretar. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas quando percebi o sol já tinha ido embora, e com ele boa parte da luz. Cansado, sentei-me numa pedra ao lado do altar, numa última tentativa de encontrar algum padrão reconhecível. Foi quando reparei que havia um pequeno buraco no altar, revelado pela luz do entardecer. Chegando mais perto vi que o buraco era na verdade um compartimento, agora lacrado pelas pedras. Sem pensar peguei a pedra mais pesada que pude levantar e joguei contra o altar uma, duas, três vezes. Joguei tantas vezes que, ao conseguir abri-lo, estava tão cansado e com os braços doendo que mal pude tirar o que havia ali dentro.

Sim, ainda havia algo lá! Meu coração ainda pula ao lembrar esse momento! Era uma espécie de punho de adaga ou espada, certamente para uso cerimonial, totalmente branca, de um material tão leve e resistente que até hoje não tinha visto. Toda sua superfície era entalhada como se fosse uma serpente, mas com penas ao invés de escamas. E onde o punho encontraria a lâmina, estava a cabeça dessa serpente, esculpida como se estivesse devorando o metal. Era linda de se ver e grande o suficiente para que fosse segurada com as duas mãos! Com certeza foi usada em rituais de sacrifício no passado, muito provavelmente humanos.

A luz já havia se acabado quando um grupo de pescadores e carregadores me encontrou ainda ao lado do altar. Quando os percebi chegando, tratei de logo esconder meu achado na bolsa e começar o discurso de que estava muito entretido em descobrir o que estava escrito no altar e, por isso, perdi a noção do tempo. O que de fato não era mentira, mas não toda a verdade. Ao voltar a praia descobri que todos já tinham partido para a outra margem e somente aquele grupo havia ficado para me buscar, uma vez que eu era o único que, supostamente, sabia as direções dentro do deserto. Chegamos ao acampamento já madrugada alta. Haviam preparado uma tenda para mim e nela colocaram todas as coisas que pude levar na travessia. Tomei meus remédios noturnos, mas não consegui descansar. Nas mãos, o punho que encontrara. Decidi que seria melhor escrever sobre isso no diário, embora não tenha intenção de mostrar a ninguém. Lá fora, já começam a acordar.

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O temor do sal

Diário da expedição de Portú Anhanguara – dia 1

Chegamos ao fim da tarde na pequena vila de Cauinan, às margens do lado do mesmo nome. Foram dez dias de viagem de Maache até aqui, rumando sempre para o sul, acompanhado o sopé da Cordilheira a oeste. Há dois dias, ao alcançarmos as cercanias desta região, as montanhas subitamente se afastaram ainda mais a oeste, deixando uma paisagem completamente plana a nossa volta. De vegetação, apenas plantas rasteiras e uma ou outra árvore isolada. Os animais que vimos eram em sua maioria de pequeno porte, como lebres e flamingos.

A vila em si é um lugar pobre, onde os habitantes vivem primariamente da pesca no lago e criação de animais. Nas casas de barro prensado e palha existem pequenos canteiros onde cultivam ervas e milho. Parece que eles não se importam em ter nada mais além disso. Um povo bem simples, eu diria. E que não demonstram muito apreço por nós desde que chegamos. Não são hostis, mas também nem um pouco amigáveis. Desde que chegamos, têm nos olhado com desconfiança. E quando contei ao líder do povoado que estávamos indo explorar o Deserto ele nos olhou como se fôssemos um bando de condenados indo para execução. Era de se esperar que as pessoas aqui neste fim de mundo se aferrassem tanto a superstições antigas e sem lógica. Mas encontrei muitas pessoas irrefutavelmente cultas e de pensamento moderno compartilhando dos mesmos medos irracionais. Pior, essas mesmas pessoas seriam fundamentais para financiar esta expedição!

Desde que comecei meus estudos, ainda muito jovem, me interessei por história antiga. E o que hoje chamamos de Deserto de Sal há muitos anos abrigou uma civilização já desaparecida. Já li muitos textos sobre esse povo, mas nada conclusivo, pois ninguém explorou o deserto em profundidade, apenas recolheram restos nas suas bordas. O relato mais interessante foi o de um viajante chamado Reno Diantac, que escreveu ter viajado por dias deserto adentro onde viu ruínas que pareciam ser de cidades. Mas ninguém toma esses textos à sério, já que ninguém viajou até lá. Minha expedição será a primeira que seguirá uma das direções propostas por Diantac; uma pequena povoação às margens de um lago seco cujas construções seriam de pedra nua, por isso, ainda visíveis.

E pensar que consegui convencer todos de que esta viajem seria lucrativa! Só prometendo ganhos muito maiores que os riscos presumidos da expedição para conseguir o financiamento… Ainda que tanto os lucros quanto os riscos sejam altamente improváveis. Mas ninguém precisa saber disso. Que todos pensem que vamos até onde seria uma antiga povoação onde haveria depósitos de prata. Ou melhor, que os guias procurem as minas. Prefiro me deter em matérias mais interessantes…

Dizem que o lugar é amaldiçoado, pois foi o palco da luta de Clauapec contra os seres que vieram do mar a oeste. Algumas lendas dizem que esses seres eram homens gigantes, outras, apenas monstros. Afinal, a lenda de Clauapec é adaptável a cada povo que acha melhor exaltar ou mudar certas coisas. Pessoalmente, não acredito em nenhuma delas. Esse tipo de história tem se provado um entrave para o aumento do entendimento que temos do mundo, por isso não deveriam mais ser encorajadas. Mas que se pode fazer, se quem as encoraja são justamente os que deviam fazer o contrário!

Às vezes acho que as pessoas ainda não deixaram de ser criatura semi-animalescas, acreditando em qualquer besteira que digam a elas, desde que o façam desde a infância e frequentemente. Eu mesmo já acreditei em muitas coisas, e me foi muito custoso abandonar essas crenças em favor de um modo de pensamento racional.

Melhor não pensar mais nisso, senão vou me irritar e não conseguir dormir direito. Amanhã atravessaremos o lago e iniciar a verdadeira jornada dentro do Deserto de Sal.

Melhor tomar meu remédio e deitar.

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